Por Eça de Queirós (1925)
Arthur inclinou-se e sahiu. Estava farto, que diabo ! Vestiu o paletot e desceu a escada sem chapéu ; mas ficou aterrado : no pateo, havia dous trintanarios de casacos brancos e um cocheiro de praça. Tornar a subir ? Não ! Retesou a vontade, dirigiu-se para o portão, emquanto o creado attonito, abria devagar a grossa fechadura. Sentia por traz risinhos fungados, a chave perra parecia resistir. Arthur tremia de raiva, de vexame ,• — emfim a porta massiça rolou, e uma frialdade humida. envolveu-lhe a cabeça : choviscava.
Então amarrou o lenço com um nó debaixo do queixo e cosido com as casas, querendo enterrar-se na escuridão, apressou-se, correndo quasi, com a chuvinha miuda fustigando-lhe o rosto, a garganta tumida de lagrimas. Mas perdeu-se, vagueou palo Rato, pelo Salitre ; pessoas paravam, assombradas d'aquelle individuo cujos passos pareciam d'ebrio, com um lenço apertado na cabeça ! Na rua da Escola, encontrou um trem que recolhia : atirou-se para dentro, gritou :
— P'r'o
Que allivio ao pisar o tapete do quarto ! Despiu a casaca com uma colera impaciente, arrancou bruscamente a gravata, como se quizesse arrojar de si, com a toilette que lhe representava a soiréé odiosa, todos os seus desejos de sociedade, d'encontros amorosos em salas aristocraticas . . .
Só quando ia apagar a luz é que se lembrou que em casa de D. Joanna Coutinho, ao outro dia, encontrariam o chapéu ! Pelas iniciaes que elle, tolo, mandara bordar no forro de setim azul, reconhel-oiam ! Que risadas ! Formar-se-ia a lenda do poeta d'Oliveira que esquecera o claque, o pelludo! Oh!... Mas que lhe importava ! Estava bem resolvido a não voltar lá, nem a outra soirée ! Isolar-se-ia na Poesia, na Arte ! Frequentaria Nazareno, seria um revolucionario, conspiraria contra aquelle mundo burguez, bancario, ficticio, idiota ! E escreveria uma satyra tremenda contra os ridiculos jogadores de whist, e as grotescas Viscondessas gordas !
— Canalhas ! — murmurou, aconchegando-se aos lençoes.
E começava a pegar no somno, quando, como o frio d'uma lamina, lhe atravessou o cerebro a idéa da phrase que dissera : Grande apepinador ! Era a unica que pronunciara ! Deu murro no colchão, rugiu uma obscenidade, e com Ilim oh ! de raiva e de vergonha, enterrou a cabeça no traves seixo.
Toda a noite sonhou com a soirée : valsava com a senhora baroneza, mas no chão encerado escorregava, entre as gargalhadas agudas da velha d'enfeites lugv.bres ; não se podia erguer e aquella gente impiedosa, estupida, egoista, continuava valsando alegremente sobre o seu corpo prostrado ; sentia so-
bre a testa, onde viviam ideaes que ella não tinha, pularem os sapatinhos de setim da senhora de cauda escarlate, e no peito, onde palpitava um coração, que não batia no peito d'elle, enterrarem-se as tachas dos tacões do somnambulo !
Dormia, já tarde, ao outro dia, quando a porta se abriu bruscamente, depois a janella, e viu junto do leito, Meirinho, pallido, com os olhos fóra das orbitas, e o seu claque na mão !
— Então — gritou elle— então o senhor sahin hontem sem chapéu ?
Arthur fingiu-se estremunhado, bocejou, espreguiçou-se, disse vagamente :
— O que é ? O que é
—O que é ? —D o claque tremia nas mãos colericas de Meirinho — É isto ! É o seu chapéu ! Então o senhor sahiu sem chapéu !
Arthur affectou rir : — pensara que o tinha perdido, procurara-o, estava com dôres de cabeça, havia uma tipoia em baixo . . .
Meirinho levou as mãos á cabeça :
— Ih, Jesus ! Que vergonha, meu caro amigo ! Eu, esta manhã, recebo um chapéu, com um bilhete de D. Joanna, dizendo quo tinham achado aquelle claque e que, só depois de muitos tratos á memoria, é que descobrira pelas iniciaes que era o seu ! Estava n'uma poltrona ! A Viscondessa, toda a noite, esteve sentada em cima !
Arthur tentou rir : até tinha pilheria !
-— Pilheria Meirinho, batendo, assombrado, com as mãos "ma na outra — Pilheria ? É uma vergonha ! Que hão-de dizer ! Eu não me atrovo a ir lá, cu nem me atrevo a ir lá outra vez ! Uma cousa assim
Levou as mãos á cabeça e sahiu desesperado.
O claque ficara sobre a cama : então Arthur, livido, agarrou-o e torceu-o com tanto rancor que lhe quebrou a mola. Maldito, vai-te ! E atirou-o furioso para o canto da roupa suja.
Saltou com os pés nús para o chão e toda a manhã, esguedelhado, com os olhos vermelhos, embrulhado no robe-de-chambre, rimou uma satyra amarga contra a sociedade, contra o High-Life :
Oh I corações de pedra, Ohi homens do milhão I
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.