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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- E esse Palma, accrescentou elle, é um traste! Eu conheço-o; elle teve uma especie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na rua do

Alecrim. Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto, Carlos... Aquelle canalha! quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle chouricinho de pus!

Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já excitado pela lembrança d'aquella velha desordem, vergastando o

Palma com nomes ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraça.

Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno feito de remendos assim que elle tinha na meza

do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, n'uma massa de arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo entre as

hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo apenas, lá no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido, e que dormia enovellado e suspenso na luz...

- Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia. Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, crusei os braços e disse-lhe: ahi tem você a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mãos!

- Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para si mesmo, affastando-se do parapeito.

Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes, Cruges quiz explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dous velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre:

- Bem dizia eu! cá estão elles... E vocês a dizer que não!

Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um montão de penedos, polidos pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora, poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava.

Então, não dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos!

- Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, não é que se chama, Alencar?

Mas o poeta não respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braços, sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panamá carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e triste.

Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:

- Vocês lembram-se, rapazes, nas Flôres e Martyrios, de uma das cousas melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada 6 de Agosto? Não se lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!

Machinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com elle fluctuante na mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixão ephemera de nervoso:

Vieste! Cingi-te ao peito.

Em redor que noite escura!

Não tinha rendas o leito,

Nem tinha lavores na barra

Que era só a rocha dura...

Muito ao longe uma guitarra

Gemia vagos harpejos...

(Vê tu que não me esqueceu)...

E a rocha dura aqueceu

Ao calor dos nossos beijos!

Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, atirou para lá um gesto triste, e murmurou:

- Foi alli.

E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéo panamá, com o lenço branco na mão. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E quando ambos deixaram esse recanto do terraço - o poeta, agachado junto do arco, estava apertando o atilho da ceroula.

Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:

- Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime.

O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, á luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quasi phantastica, como a illustração de uma bella lenda de cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarellos; ao fundo, o renque cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda côr de violeta escura, coroada pelo castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro...

Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Doré. Alencar teve uma bella phrase sobre a imaginação dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os apressando para diante.

(continua...)

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