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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-Nenhuma. Paris não se agüenta... está, estragado, positivamente estragado...Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gailon, o Ernest, que era maître-d’hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada! Não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não há nada! Ainda assim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê: Para cá as mulheres! – engraçada, bem despida... A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o Amor no Water-Closet, que diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?

-No Grand-Hotel, meu senhor.

-Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?

Curvei a cabeça:

-Sua Majestade, bem.

-Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacinto é que me desola! Vá ver a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal Amor no Water-Closet.

Um rijíssimo aperto de mão – e S. Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou... Excelente homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros, esguios, de tíbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equívoco da carreira, escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Fídias, se visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!...

No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei na amada casa senti vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara grandes lonas cobriam as tapeçarias heróicas, e igual lona escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes de ébano da Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num Concílio, pareciam separados do mundo pôr aquele pano que sobre eles descera depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confusão de instrumentozinhos, de que eu perdera já a memória; e só a Mecânica suntuosa, pôr sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezes de metais, numa frieza inerte, na inatividade definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num Museu, para exemplificar a instrumentação caduca dum mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da eletricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antigüidades; e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exata da vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da supercivilização, e, como eu, encolheriam desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona.

(continua...)

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