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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Fora por tristeza que deixara a "Alexandriazinha". O Hotel das Pirâmides, as maletas carregadas, tinham já saturado a sua alma de um tédio insondável; e o nosso embarque no Caimão para Jerusalém dera-lhe a saudade dos mares, das cidades cheias de história, das multidões desconhecidas... Um judeu de Quechã, que ia fundar uma estalagem em Bagdá com bilhar, aliciara-o para "marcador". E ele, metendo num saco as piastras juntas nas amarguras do Egito, ia tentar essa aventura do progresso junto às águas lentas do Eufrates, na terra de Babilônia. Mas, cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro Jerusalém, insensivelmente, levado talvez pelo espírito como o apóstolo, para descansar com as mãos quietas a uma esquina da ViaDolorosa...

- E o cavalheiro recebeu alguns jornais da nossa Lisboa? Gostava de saber como vai por lá a rapaziada...

Enquanto ele assim balbuciava, triste e com o turbante à banda, eu revia risonhamente a terra quente do Egito, a rua clara das Duas Irmãs, a capelinha entre plátanos, as papoulas do chapéu da Mary..

E mais agudo me picava outra vez o desejo da minha loura luveira. Que doce grito de paixão nos seus beiços gordinhos, quando uma tarde, queimado pelo sol da Síria e mais forte, eu surgisse diante do seu balcão espantando o gato branco! E a camisinha?... Bem! Contaria que uma noite, junto de uma fonte, ma tinham roubado cavaleiros turcos com lanças.

- Dize lá, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas? Que tal está? Hem? Rechonchudinha?

Ele baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivara duas rosas.

- Já não está... Foi para Tebas!

- Para Tebas? Onde há umas ruínas?... Mas isso é no alto Egito! Isso é em cascos de Núbia! Ora essa!... Que foi ela lá fazer?

- Alindar as vistas - murmurou Alpedrinha com desolação.

Alindar as vistas! Só compreendi quando o patrício me contou que a ingrata rosa de Iorque, adorno de Alexandria, fora levada por um italiano de cabelos compridos, que ia a Tebas fotografar as ruínas desses palácios, onde viviam face a face Ramsés, rei dos homens, e Amon, rei dos deuses... E Maricoquinhas ia amenizar "as vistas", aparecendo nelas à sombra austera dos granitos sacerdotais, com a graça moderna do seu guarda-solinho fechado e do seu chapéu de papoulas...

- Que descarada! - gritei eu, varado. - Então com um italiano? E gostando dele? Ou só negócio?... Hem, gostando?

- Babadinha - balbuciou Alpedrinha.

E, com um suspiro, atroou o Hotel de Josafate. Perante este ai, repassado de tormento e de paixão, relampejou-me na alma uma suspeita abominável.

- Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui há perfídia, Alpedrinha!

Ele baixou a fronte tão contritamente que o turbante lasso rolou nos ladrilhos. E antes que ele o levantasse já eu lhe empolgara com sanha o braço mole.

- Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas, hem? Também petiscaste?

A minha face barbuda chamejava... Mas Alpedrinha era meridional, das nossas terras palreiras da vanglória e do vinho. O medo cedeu à vaidade, e revirando para mim o bugalho branco do olho:

- Também petisquei!

Sacudi-lhe o braço para longe, cheio de furor e de nojo. Também aquela - com aquele! Oh, a Terra! A Terra! Que é ela se não um montão de cousas podres, rolando pelos céus com basófias de astro?

- E dize lá, Alpedrinha, dize lá, também te deu uma camisa?

- A mim um chambrezinho...

Também a ele - roupa branca! Ri, acerbamente, com as mãos nas ilhargas.

- E ouve lá... Também te chamava "seu portuguesinho valente"?

- Como eu servia com turcos, chamava-me seu "mourozinho catita."

Ia rebolar-me no divã, rasgá-lo com as unhas, rir sempre, num desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e o risonho Pote apareceram alvoroçados.

- Então?...

Sim, chegara de Esmirna um paquete que levantava nessa tarde ferro para o Egito, e que era o nosso dileto Caimão!

- Ainda bem! - gritei, atirando patadas ao ladrilho. - Ainda bem, que estava farto de Oriente!... Irra!

Que não apanhei aqui senão soalheiras, traições, sonhos medonhos e botas pelos quadris! Estava farto!

Assim eu bramava, sanhudo. Mas nessa tarde, na praia, diante da barcaça negra que nos devia levar ao Caimão, entrou-me na alma uma longa saudade da Palestina, e das nossas tendas erguidas sob o esplendor das estrelas, e da caravana marchando e cantando por entre as ruínas de nomes sonoros.

O lábio tremeu-me, quando Pote comovido me estendeu a sua bolsa, de tabaco de Alepo:

- D. Raposo, é o último cigarro que lhe dá o alegre Pote.

E a lágrima rolou por fim quando Alpedrinha, em silêncio, me estendeu os braços magros.

Da barcaça, acocorado sobre os caixões das relíquias, ainda o vi na praia, sacudindo para mim um lenço triste de quadrados - ao lado de Pote que nos atirava beijos, com as grossas botas metidas na água. E já no Caimão, debruçado na amurada, ainda o avistei imóvel sobre as pedras do molhe, segurando com as mãos, contra a brisa salgada, o seu vasto turbante branco.

(continua...)

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