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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando no braço do poeta. O Damaso está na Lawrence?

Não, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas chegara, fôra-se deitar, fatigado; e n'essa manhã almoçara só com dois rapazes inglezes. O unico animal que avistara fôra um lindo cãosinho de luxo, ladrando no corredor...

- E vocês onde estão?

- No Nunes.

Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:

- Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes eu tenho dito áquelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um Choppin, é necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem...

Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:

- Tem muito talento, tem muita idéa melodica!... Olha que andei com aquillo ás cabritas... E a mãe, menino, foi muitissimo boa mulher.

- Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é sublime.

Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaçadas, que lhe faziam

um toldo de folhagem aberto á luz como uma renda: no chão tremiam manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se não via ia fugindo e cantando.

- Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, então tens de subir á serra. Ahi tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte...

- Não sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.

A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos, feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso, logares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o scismar dos indolentes...

- De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra é divino. Não ha cantinho que não seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo, aquella linda florinha azul... - e, ternamente, apanhou-a.

- Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora, desde que o poeta fallara do cãosinho de luxo, mais certo de que ella estava na Lawrence, e que a ía brevemente encontrar.

Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillusão diante d'aquelle vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a

idéa, de pequeno, que Sitiaes era um montão pittoresco de rochedos, dominando a profundidade de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento.

- A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos. Anda para diante!

E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez mais animado, lhe gritava a chalaça do dia:

- E v. ex.ª deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de hespanholas!...

Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido, curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe o encontro no Nunes e os furores da Concha.

Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de botões de ouro brilhando ao sol, e de

malmequersinhos brancos. Nenhuma folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mólhos de raios de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de silencio luminoso; e só se ouvia, ás vezes, monotona e dormente, a voz de um cuco nos castanheiros.

Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brazão rococó, as janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estarse deixando morrer voluntariamente n'aquella verde solidão, - amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as ultimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ía descrevendo ao Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de café na mão, a ir pedir perdão á Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapéo panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.

Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre aquelle bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do valle subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, fallou com nojo do Eusebiosinho. - Ahi está uma torpeza que elle nunca commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religião d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras...

(continua...)

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