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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

"Se soubesse que nesta santa viagem te tinhas metido com saias, escorraçava-te como um cão!" Assim o dissera a Titi, em vésperas da minha romagem, diante da Magistratura e da Igreja. E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar a relíquia de uma luveira, perder a amizade da velha que tão caramente conquistara com terços, pingos de água benta e humilhações da razão liberal? Jamais!... E, se não afoguei logo o embrulho funesto na água de um charco, ao atravessarmos as choças de Coloniê, foi para não revelar ao penetrante Topsius as covardias do meu coração. Mas decidi que mal penetrássemos com a noite nas montanhas de Judá, retardaria o passo à égua, e longe dos óculos do historiador, longe das solicitudes de Pote, arrojaria a um barranco a terrível camisa de Mary; evidência do meu pecado e dano da minha fortuna. E que bem depressa os dentes dos chacais a rasgassem! Bem depressa os chuveiros do Senhor a apodrecessem!

Já passáramos o túmulo de Samuel por trás dos rochedos de Emaús, já para sempre Jerusalém desaparecera aos meus olhos, quando a égua de Topsius, avistando uma fonte, num vale cavado junto à estrada, deixou a caravana, deixou o dever - e trotou para a água, com impudência e com alacridade. Estaquei, indignado:

- Puxe-lhe a rédea, doutor! Olhe que descaro de égua! Ainda agora bebeu... Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe toque, homem!

Mas debalde o filósofo, com os cotovelos saídos, as pernas esticadas, lhe repuxava bridões e crinas. A cavalgadura abalou com o filósofo.

Corri também à fonte, para não abandonar naquele ermo o precioso homem. Era um fio de água turva, escorrendo de uma quelha sobre um tanque escavado na rocha. Ao pé branquejava, já tida, a grande carcaça de um dromedário. Os ramos de uma mimosa, ali solitária, tinham sido queimados por um fogo de caravana. Longe, na espinha escamada de uma colina, um pastor, negro no céu opalino, ia caminhando devagar entre as suas ovelhas com a lança pousada ao ombro. E na sombria mudez de tudo a fonte chorava.

Aquela quebrada era tão deserta, que me lembrou deixar ali a fazer-se, como a ossada do dromedário, o embrulhinho da Mary... A égua do historiador beberava com pachorra. E eu procurava aqui, além, um barranco ou um charco - quando me pareceu que, junto da fonte, e misturado ao pranto dela, corria também pranto humano.

Torneei um penedo que avançava soberbamente, como a proa uma galera - e descobri, agachada e refugiada entre as pedras e os cardos, uma mulher que chorava, com uma criancinha no regaço; os seus cabelos crespos espalhavam-se pelos ombros e os braços, que os trapos negros mal cobriam; e sobre o filho, que dormia no calor do colo, o seu choro corria, mais contínuo, mais triste que o da fonte, e como se não devesse findar jamais.

Gritei pelo jucundo Pote. Quando ele trotou para nós, agarrando a coronha prateada da sua pistola, supliquei que perguntasse à mulher a causa dessas longas lágrimas. Mas ela parecia entontecida pela miséria; falou surdamente de um casebre queimado, de cavaleiros turcos que tinham passado, do leite que lhe secava... Depois apertou a criança contra a face - e sufocada, sob os cabelos esguedelhados, recomeçou a chorar.

O festivo Pote deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius tomou, para a sua severa conferência sobre a Judéia Muçulmana, um apontamento daquele infortúnio. E eu, comovido, procurava na algibeira o meu cobre - quando me recordei que o dera num punhado ao negro do Hotel do Mediterrâneo. Mas tive uma útil inspiração. Atirei-lhe o perigoso embrulho da camisinha da Mary; e a meu pedido o risonho Pote explicou, à desventurada, que qualquer das pecadoras que habitam junto à Torre de Davi, a gorda Fatmé ou Palmira, a Samaritana, lhe daria duas piastras de ouro por esse vestido de luxo, de amor e de civilização.

Trotamos para a estrada. Atrás de nós a mulher lançava-nos, por entre soluços e beijos ao filho, todas as bênçãos do seu coração; e a nossa caravana retomou a marcha - enquanto o arrieiro adiante, escarranchado sobre as bagagens, cantava à estrela de Vênus que se erguera esse canto da Síria, áspero, alongado e doente, em que se fala de amor, de Alá, de uma batalha com lanças, e dos rosais de Damasco...

Ao apearmos de manhã no Hotel de Josafate, na vetusta Jafa - prodigiosa foi a minha surpresa vendo, pensativamente sentado no pátio, com um bojudo turbante branco, o mofino Alpedrinha!... Fiz-lhe ranger os ossos num abraço voraz. E quando Topsius e o jucundo Pote partiram, debaixo do guarda-sol de paninho, a colher novas do paquete que nos devia levar à terra do Egito - Alpedrinha contou-me a sua história, escovando o meu albornoz.

(continua...)

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