Por Eça de Queirós (1925)
Arthur, folheando o album — pessoas reaes, vistas da Pena, individuos de farda — recordava aestrophes d'A Pomba. Pelo meio da sala, dous sujeitos passeavam pausadamente : um, muito alto, de perfil espesso, com uma enorme testa deprimida no alto, escutava, com um olhar vazio, somnambulo ; o outro, magrinho, de passinho dançado, fallava com verbosidade, uma das mãos por baixo da aba da casaca, o que lhe mostrava um pouco da camisa sal-lida, a outra, de pollegar estendido, furando o ar com gestos vivos, aqui e além ; Arthur ouvia-lhes ao passarem junto d'elle : «a portaria . . influencias da prima . . o Rei é que quiz . . . , o ministro furioso . b. Ás vezes paravam e o mais alto rolava em redor o bugalho baço dos olhos pasmados. Um individuo nutrido fallava com duas senhoras d'edade da irreligião dos creados ! Era cousa que elle não supportava ! As velhas lamentavam a perdição dos tempos . O povo estava impio, era obra da maçonaria . . . Mas um velhote, de collarinho enorme e bochechas fortes, approximou-se arrastando a perna : perguntaram-lhe se ia melhor : Não ; estava decidido ó operação , Talvez fosse fazel-a a Paris. Discutiram então medicos, pharmacias, e as vozes tomavam tons dolentes, como n'um quarto onde se agonisa.
Mas Arthur teve de ge arredar um pouco para dar logar, ó mesa, á senhora de vestido côr de palha, que se approximara com o rapaz magro de pincenez : era alta, com um seio rico, a pelle esplendi• da, os olhos grandes ; sentou-se, tomou uns poucos de retratos soltos que estavam n'um cesto de filigrana; o rapaz magro disse-lhe ainda algumas palavras baixo e afastou-se de cabeça erguida, limpando as lunetas ao lenço. Ella deu um olhar rapido a Arthur, outro, lento, á roda do vestido, comprimiu de leve um bocejo e começou a examinar distrahidamente os retratos : Arthur admirava-lhe as mãos d'uma brancura lactea, cheias de pedrarias, o comego do braço cujo torneado, polido como um marmore, se perdia n'um fOfo de rendas ricas, quando o Padilhão que acabara de lêr a buena-dicha, lhe veio fallar : nunca a vira com melhores côres Ella riu :
— Sim E então não nos faz outra imitacão ?
— Ah, já contribui, já contribui ! A do burro canga-me muito. Aqui o nosso amigo — e indicou Arthur — vai-nos recitar . . .
Ella olhou para Arthur um pouco de lado, e Padilhão, muito correcto, apresentou-o :
—O meu amigo Arthur Corvello. E agora accrescentou— vou vêr o D. Frederico que tem pere dido e está furioso Au revoir, snr. a baroneza !
Arthur, vermelho, procurava uma palavra, quí do ella reparando n'uma das photographias, lh'a mostrou :
— É Rochefort, não é ?
Arthur, quasi inconscientemente, soltou :
— Grande apepinador !
E, espantado, aterrado d'aquella phrase quasi obscena, que lhe sahira involuntariamente, como um arroto, sentiu a vergonha esbrasear-lhe a pelle, pôr-lhe um suor nas mãos, immobilisal-o. Viu os dous sujeitos que passeavam pararem junto da baroneza : mas atravez do zumbido que lhe enchia os ouvidos, as suas vozes chegavam-lhe apenas como um murmurio remoto ; percebeu vagamente que fallavam do Fim de D. Juan — o poema recente d'um poeta illustre. A baroneza, que justamente o lera n'essa manhã, não gostava achava que tinha paginas incomprehensiveis ; o individuo magrinho atacava o livro : não que o tivesse lido, oh não ! — não tinha tempo para se occupar de versos, de romances, de litteratura — mas va-lhe que estava recheado d'immoralidades e de idéas de Communa . . . O individuo soj nnambulo, esse, parecia procurar uma phrase na lanpada Carcel, no penteado da baroneza, no peitilho da sua propria camisa, com olhares d'uma ancia abstracta • não a achou e passou os dedos devagar pela testa enorme, com uma lentidão cheia d'agonia emquanto o magrinho continuava a fallar : parecia furioso com as idéas novas, os livros novos, os rapazes novos ! Era d'opinitío que o Gove no devia inter vir. O somnambulo, com um esforço que lhe entumeceu mais o rosto, disse por fim, n'uma voz espesga, crassa :
— É todavia um rapaz bastan(e profundo ! — teve outro esforço e murmurou n'um tom cavernoso : — Dizem-me que tem muito i undo !
Era possivel — mas a senhora btroneza preferia a todo o Fim de D, Juan, uma sim) )les quadra das Flores da Alma : « As flores d'alma que se alteiam betlas
— Ah ! — disseram ambos, cone)rdando impetuosamente.
As palavras que chegavam por frffgmentos a Arthur, atravez da sua turbação, faziam- lhe entrevêr na senhora baroneza leitura, curiosida des artisticas, um gosto formado, e a sua phrase : grande apepinador! parecia-lhe então mais estupida, mais torpe !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.