Por Eça de Queirós (1878)
- Mas enfim...
- Adeus! - E ia sair da sala, indignada.
- Luísa, pelo amor de Deus! Tu não me compreendeste...
Ela parou; disse precipitadamente, como impaciente por acabar:
- Compreendi, Basílio, obrigada. Mas não, não é necessário. Estou nervosa, é o que é... Nãoprolonguemos mais isto... Adeus...
- Mas sabes que volto, dentro de três semanas...
- Bem, então nos veremos...
Ele atraiu-a, deu-lhe um beijo na boca, encontrou os seus lábios passivos e inertes.
Aquela frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:
- Nem um beijo me queres dar?
Nos olhos de Luísa passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando:
- Adeus.
Basílio esteve um momento a olhá-la; teve como um leve suspiro:
- Adeus! - E da porta, voltando-se, com melancolia: - Escreve-me ao menos. Sabes a minhamorada. Rua Saint Florentin, 22.
Luísa chegou-se à janela. Viu-o acender o charuto na rua, falar ao cocheiro, saltar para o cupê, fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janelas!
O trem rolou. Era o no 10 ... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. - Ele partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e a vida aparecia-lhe como uma vasta planície desconhecida, coberta da densa noite, eriçada de perigos!
Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cair no sofá; viu ao pé o saco de marroquim, que preparara na véspera para fugir; abriu-o, pôs-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada - encontrou a fotografia de Jorge! Ficou com ela na mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom. - Não, não estava no mundo só! Tinha-o a ele! Amava-a aquele; nunca a trairia, nunca a abandonaria! - E colando os beiços ao retrato, umedecendo-o de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, lavada em lágrimas dizendo: - Perdoa-me, Jorge, meu Jorge, eu querido Jorge, Jorge da minha alma!
Depois de jantar, Joana veio dizer-lhe timidamente:
- A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da Sra. Juliana?
- Mas onde quer você ir saber? - perguntou Luísa.
- Ela, às vezes vai à casa de uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhetivesse dado alguma, esteja mal. Mas também não mandar recado desde ontem pela manhã... Coisa assim! Eu podia ir saber...
- Pois bem, vá, vá.
Aquela desaparição brusca inquietava também Luísa. Onde estava? Que fazia? Parecia-lhe que alguma coisa se tramava em segredo, longe dela; que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente...
Anoiteceu. Acendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só em casa; e, passeando pelo quarto, pensava que àquela hora Basílio em Santa Apolônia comprava alegremente o seu bilhete, instalava-se no vagão, acendia o charuto, e daí a pouco, a máquina arquejando levá-loia para sempre! Porque não acreditava "na demora de três semanas, um mês"! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar sentia que alguma coisa dentro em si se partia com aquela separação, e sangrava dolorosamente!
Eram quase nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joana de volta; foi abrir com um castiçal - e recuou vendo Juliana, amarela, muito alterada.
- A senhora faz favor de me dar uma palavra?
Entrou no quarto atrás de Luísa, e imediatamente rompeu, gritando, furiosa:
- Então a senhora imagina que isto há de ficar assim? A senhora imagina que por o seu amantese safar, isto há de ficar assim?
- Que é, mulher? - fez Luísa, petrificada.
- Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto há de ficar em nada? - berrou.
- Oh, mulher, pelo amor de Deus!...
A sua voz tinha tanta angústia que Juliana calou-se.
Mas depois de um momento, mais baixo:
- A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma coisa era! Queria pedir aoprimo da senhora que me ajudasse! Estou cansada de trabalhar, e quero o meu descanso. Não ia fazer escândalo; o que desejava é que ele me ajudasse... Mandei ao hotel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivais, para o inferno! E o criado ia à noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram? - E retomada pela sua cólera, batendo com o punho furiosamente na mesa: - Raios me partam, se não houver uma desgraça nesta casa, que há de ser falada em Portugal!
- Quanto quer você pelas cartas, sua ladra? - disse Luísa, erguendo-se . direita, diante dela.
Juliana ficou um momento interdita.
- A senhora ou me dá seiscentos mil réis, ou eu não largo os papéis! - respondeu, empertigando-se.
- Seiscentos mil réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil réis?
- Ao inferno! - gritou Juliana. - Ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, oseu marido há de ler as cartas!
Luísa deixou-se cair numa cadeira, aniquilada.
- Que fiz eu para isto, meu Deus? Que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.