Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

João Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o doutor, parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras tão sábias, de tantas idéias, se interessasse por ele, toda a intriga seria facilmente desfeita e a sua felicidade, o seu lugar na Rua da Misericórdia recobrados para sempre.

- Então vossa excelência não pode fazer nada por mim? disse muito desconsolado.

- Eu posso talvez curar-te de outra pneumonia. Tens outra pneumonia a curar? Não? Então...

João Eduardo suspirou:

- Sou uma vítima, senhor doutor!

- Fazes mal. Não deve haver vítimas, quando não seja senão para impedir que haja tiranos - disse o doutor, pondo o seu largo chapéu desabado.

- Porque no fim de tudo, exclamou ainda João Eduardo que se prendia ao doutor com uma sofreguidão de afogado, no fim de tudo o que o patife do pároco quer, com todos os seus pretextos, é a rapariga! Se ela fosse um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um ímpio ou não! O que ele quer é a rapariga!

O doutor encolheu os ombros.

- É natural, coitado - disse, já com a mão no fecho da porta. Que queres tu? Ele tem para as mulheres, como homem, paixões e órgãos; como confessor, a importância dum Deus. É evidente que háde utilizar essa importância para satisfazer essas paixões; e que há de cobrir essa satisfação natural com as aparências e com os pretextos do serviço divino... É natural.

João Eduardo então, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a esperança que o trouxera ali, furioso, vergastando o ar com o chapéu:

- Canalha de padres! Foi raça que sempre detestei! Queria-a ver varrida da face da Terra, senhor doutor!

- Isso é outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escutá-lo ainda, e parando à porta do quarto. Ouve lá. Tu crês em Deus? No Deus do Céu, no Deus que lá está no alto do Céu, e que é lá de cima o princípio de toda a justiça e de toda a verdade?

João Eduardo, surpreendido, disse:

- Eu creio, sim senhor.

- E no pecado original?

- Também...

- Na vida futura, na redenção, etc.?

- Fui educado nessas crenças...

- Então para que queres varrer os padres da face da Terra? Deves pelo contrário ainda achar que são poucos. És um liberal racionalista nos limites da Carta, ao que vejo... Mas se crês no Deus do Céu, que nos dirige lá de cima, e no pecado original, e na vida futura, precisas duma classe de sacerdotes que te expliquem a doutrina e a moral revelada de Deus, que te ajudem a purificar da mácula original e te preparem o teu lugar no Paraíso! Tu necessitas dos padres. E parece-me mesmo uma terrível falta de lógica que os desacredites pela imprensa...

João Eduardo, atônito, balbuciou:

- Mas vossa excelência, senhor doutor... Desculpe-me vossa excelência, mas...

- Dize, homem. Eu quê?

- Vossa excelência não precisa dos padres neste mundo...

- Nem no outro. Eu não preciso dos padres no mundo, porque não preciso do Deus do Céu. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro de mim, isto é, o princípio que dirige as minhas ações e os meus juízos. Vulgo Consciência... Talvez não compreendas bem... O fato é que estou aqui a expor doutrinas subversivas... E realmente são três horas...

E mostrou-lhe o cebolão.

À porta do pátio, João Eduardo disse-lhe ainda:

- Vossa excelência então desculpe, senhor doutor...

- Não há de quê... Manda a Rua da Misericórdia ao diabo!

João Eduardo interrompeu com calor:

- Isso é bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixão está a roer cá por dentro!...

- Ah! fez o doutor, é uma bela e grande coisa a paixão! O amor é uma das grandes forças da civilização. Bem dirigida levanta um mundo e bastava para nos fazer a revolução moral... - E mudando de tom: - Mas escuta. Olha que isso às vezes não é paixão, não está no coração... O coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por decência, para designar outro órgão. É precisamente esse órgão o único que está interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E nesses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!

XIV

João Eduardo desceu a rua, embrulhando o cigarro. Sentia-se enervado, todo cansado da noite desesperada que passara, daquela manhã cheia de passos inúteis das conversas do doutor Godinho e do doutor Gouveia.

- Acabou-se, pensava, não posso fazer mais nada! É agüentar.

Tinha a alma extenuada de tantos esforços de paixão, de esperança e de cólera. Desejaria ir estirar-se ao comprido, num sítio isolado, longe de advogados, de mulheres e de padres, e dormir durante meses. Mas como já passava das três horas, apressava-se para o cartório do Nunes. Teria talvez ainda de ouvir um sermão por ter chegado tão tarde! Triste vida a sua!

Dobrava a esquina no Terreiro, quando ao pé da casa de pasto do Osório se encontrou com um moço de quinzena clara, debruada de uma fita negra muito larga, e com um bigodinho tão preto que parecia postiço sobre as suas feições extremamente pálidas.

- Olé! Que é feito, João Eduardo?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8485868788...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →