Por Eça de Queirós (1887)
De leve, sobre o muro, entre as madressilvas, um pássaro cantou; e mais alegre que ele cantou uma esperança no meu coração! Era a Titi na cama, com o lenço negro amarrado na cabeça, apalpando angustiosamente as dobras do lençol suado, arquejando com terror do diabo... Era a Titi a espichar, retesando as canelas. Num dia macio de maio metiam-na já fria e cheirando mal, dentro de um caixão bem pregado e bem seguro. Com tipóias atrás, lá marchava Dona Patrocínio para a sua cova, para os bichos. Depois quebrava-se o lacre do testamento na sala dos damascos, onde eu preparara, para o tabelião Justino, pastéis e vinho do Porto; carregado de luto, amparado ao mármore da mesa, eu afogava, num lenço amarfanhado, o escandaloso brilho da minha face; e dentre as folhas de papel selado senta, rolando com um tinir de ouro, rolando com um sussurro de searas, rolando, rolando para mim os contos de G. Godinho!... Oh êxtase!
O santo frade pousara o regador, e passeava com o breviário aberto numa ruazinha de murta. Que faria eu, na minha casa em Santana, apenas levassem a fétida velha, amortalhada num hábito de Nossa Senhora? Uma alta justiça; correr ao oratório, apagar as luzes, desfolhar os ramos, abandonar os santos à escuridão e ao bolor! Sim, todo eu, Raposo e liberal, necessitava a desforra de me ter prostrado diante das suas figuras pintadas como um sórdido sacrista, de me ter recomendado à sua influência de calendário, como um escravo crédulo! Eu servira os santos para servir a Titi. Mas agora, inefável deleite, ela na sua cova apodrecia; naqueles olhos, onde nunca escorrera uma lágrima caridosa, fervilhavam gulosamente os vermes; sob aqueles beiços, desfeitos em lodo, surgiam enfim, sorrindo, os seus velhos dentes furados que jamais tinham sorrido... Os contos de G. Godinho eram meus; e libertado da ascorosa senhora, eu já não devia aos seus santos nem rezas nem rosas! Depois, cumprida esta obra de justiça filosófica, corria a Paris, às mulherinhas!
O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me no ombro, chamou-me seu filho, lembroume que se fechava o santo horto e que lhe seria grata a minha esmola... Dei-lhe uma placa; e recolhi regalado a Jerusalém, devagar, pelo Vale de Josafate, cantarolando um fado meigo.
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a novena na Igreja da Flagelação quando a nossa caravana se formou à porta do Hotel do Mediterrâneo, para partirmos de Jerusalém. Os caixões das relíquias iam sobre o macho, entre os fardos. O beduíno, mais encatarroado, abafara-se num ignóbil cachenê de sacristão. Topsius montava outra égua, séria e pachorrenta. E eu, que por alegria pusera uma rosa vermelha ao peito, resmunguei, ao pisarmos pela vez derradeira a ViaDolorosa: - "Fica-te, pocilga de Sião!"
Já chegávamos à porta de Damasco quando um grito esbaforido ressoou, no alto da rua, à esquina do convento dos abissínios:
- Amigo Pote, doutor, cavalheiros!... Um embrulho! Esqueceu um embrulho...
Era o negro do hotel, em cabelo, agitando um embrulho que logo reconheci pelo papel pardo e pelo nastro vermelho. A camisinha de dormir da Mary! E recordei que, com efeito, ao emalar, eu não o vira no guarda-roupa, no seu ninho de peúgas.
Esfalfado, o servo contou que depois de pararmos, varrendo o quarto, descobrira o embrulhinho entre pó e aranhas, detrás da cômoda; limpara-o carinhosamente; e como fora sempre seu afã servir o fidalgo lusitano, abalara, mesmo sem a jaleca...
- Basta! - rosnei eu, seco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E pensava: "Como rolou ele para trás da cômoda?" Talvez o negro atabalhoado que, arrumando, o tirara do seu ninho de peúgas... Pois antes lá permanecesse para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque em verdade este pacote era agora audazmente impertinente.
Decerto! Eu amava a Mary. A esperança que em breve na terra do Egito seria apertado pelos seus braços gordinhos, ainda me fazia espreguiçar com langor. Mas guardando fielmente a sua imagem no coração, não necessitava trazer perenemente à garupa a sua camisinha de dormir. Com que direito pois corria esta bretanha atrás de mim, pelas ruas de Jerusalém, querendo instalar-se violentamente nas minhas malas e acompanhar-me à minha pátria?
E era essa idéia de pátria que me torturava em quanto nos afastávamos das muralhas da Cidade
Santa... Como poderia eu jamais penetrar com este pacote lúbrico na casa eclesiástica da tia Patrocínio? Constantemente a Titi se encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, ásperas e ávida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas minhas ceroulas... Que cólera a esverdearia se numa noite de pesquisas ela encontrasse estas rendas babujadas pelos meus lábios, fedendo a pecado, com a oferta em letra cursiva "Ao meu portuguesinho valente!"
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.