Por Eça de Queirós (1925)
— Então tem gostado de Lisboa ?
— Muito, minha senhora!—respondeu com todo o sangue nas faces.
— Ah, gosta-se sempre . . . ! — Sorria por cima do hombro d'Arthur para o grupo das meninas que folheavam o album : ameaçou-as mesmo com o leque; com um rapido brilhar das pupillas negras. — Está um tempo muito agradavel, não ?
— Adoravel !
— E vai durar, é d'esperar . . . — Tornou a sor rir para as raparigas, a ameaçal-as com o leque —
E demora-se ?
— É provavel !
— Terei muito prazer — abaixou-lhe a ca beça com um movimento lento que lhe cerrou as palpebras e com outro sorrizinho que lhe descobriu as gengivas, afastou-se, dizendo ainda : — O Meiri-
Ilho está com o seu whist . . ,
Arthur viu-a um momento fallar ás meninas, rindo, com a cinta sempre mobil, como que sustentada no ar pelo tufado das saias; depois, debruçar-se para o album, fallar-lhes sobre o rosto, pondo a mão no hombro d'uma ou d'outra. viva, radiante ; acha, va•a provocante com o seu longo nariz, os dentes tão brancos, aquella magreza quasi masculina onde corria uma vibração de nervos excitados ; e mais animado, como se as palavras que dissera lhe tivessem dissipado o entorpecimento, atravessou a outra sala, para ir vêr o Meirinho na sua partida de whist. Havia dous reposteiros ; abriu um d'elles, e topou com uma porta fingida ; n'um vão estava uma vassoura ! Vermelho até á raiz dos cabellos, ergueu o outro : ao fundo d'uma saleta, Meirinho lá estava a uma mesa de Arthur apoderou-se avidamente d'uma cadeira e installou-se entre elle e um sujeito de suíças grisalhas e oculos d'ouro.
— Então tem-se divertido — perguntou-lhe Meirinho,
Recebeu as suas cartas e recahiu n'uma reflexão immovel, coçando devagar a barba. Arthur não sabia o whist ; mas como se fumava, accendeu um charuto, mostrando-se interessado pelo jogo, seguindo attentamente as cartas, estabelecido alli como n'um refugio amavel, no terror da sala, das hombreiras solitarias, das caudas de sêda . . .
O monotono movimento das cartas ia-lhe dando um torpor somnolento : com o claque nos joelhos, a cabeça vazia, uma vaga sêd_e, abandonavase n?uma inercia molle, enfastiada, de que o tirava o Meirinho de vez em quando, dizendo-lhe, com um tom satisfeito :
— Não se faz vintem !
Aquillo escandalisava o gujeitG d'oculos, que perdia :
—O que não se faz, o que não é decente é ter uma sorte tão escandalosa !
Parecia ter um genio irritavel : certas cartadas faziam-no mexer-se na cadeira com um rosnar hos til ; já por duas vezes olhara para Arthur, de lado, com rancor.
Arthur accendia outro charuto, quando o sujeito d'oculos que jogara uma carta com ira, batendo-a fortemente na mesa, ao vêr Meirinho estender a mão para a vasa, pulou na cadeira, fez estalar os nós dos dedos, repelliu a caixa de rapé, e disse entre os dentes :
— Eu, quando ha calistos, não posso ! Não posso ! Nem o jogo é um prazer !
Arthur não sabia o que era um calisto, mas estranhou o accento sibillante, furioso, d'aquella voz caturra : sentia que o sujeito d'oculos o detestava ; o parceiro d'elle, mais grave, muito calvo, disse :
— Então não se vai fazer a Côrte ás senhoras
Arthur respondeu :
— Estou bem, gosto de vêr jogar !
O dos oculos torceu-se na cadeira, soprando.
Meirinho, mudo, cofiava a barba, a face risonha, banhada na alegria do ganho.
Deram de novo as cartas, mas ao vêr as suas, o sujeito d'oculos deu uma punhada na mesa :
— Uma cousa assim !
Tinha a face injectada e por traz dos oculos, os olhos pequeninos faiscavam-lhe ; de repente, a uma cartada infeliz, recuou a cadeira com um oh ! surdo, rangeu os dentes e voltando-se para Arthur, tremulo de colera :
— Perdão, eu não tenho o gosto de o conhecer, mas não posso, não posso ! Estes amigos sabem, conhecem-me o genio ! Tenha a bondade de Inudar de logar ! E não se contendo, berrou os punhos fechados : — Eu com calistos não posso !
Arthur ergueu-se, pallido, balbuciando :
— Pois não, pois não !
Atirou o charuto e pisando o tapete com passos nervosos, sahiu para deixar a soirée, indignado, hilmilhado, furioso contra Meirinho. Ao erguer o reposteiro deu com D. Joanna Coutinho, que, muito affavel, o chamou :
— Ia procural-o ! O Meirinho disse-me que é poeta Queremos que nos recite logo alguma
cousa.
'Iodo o seu despeito se dissipou ; sentiu envolvel-o subitamente uma sympathia ambiente :
— Pois não, pois não, minha senhora ! Recitarei A Pomba.
Curvou-se, enternecido, e entrando na sala foi apoderar-se do album que as tres meninas tinham deixado, muito entretidas agora o Padilhü) que lhes lia nas palmas das mãos a buena-dicha, com ceremonias de bruxo, fazendo voz sepulchral. E riam ! .
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.