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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O exterior do edifício era misterioso e lúgubre Cingia-o em to da a sua amplitude umaalta muralha que o disgregava do resto do mundo, cerrando as casas habitadas pela freiras ao exame de fo ra. Era um prédio emparedado. Amuralha, que media a altura de quatro andares, era da cor da estamenha, sombra e triste, manchada de grandes nódoas esverdeadas e negrascomo o capuz de um ermita, tinia espécie de lençol em que se enrolasse para o enterro uma casa morta. Havia um ponto em que esta faixa se recolhia, formando o pátio por onde seentrava para o convento, cuja porta, mordida pelos anos, chapeada e cravejada com enormes pregos, se via no fundo através dos grossos varões dó uma grade de ferro. Pe las juntas desarticuladas das grandes pedras que lajeavam o pá tio, rompiam moitas de ortigas, com a rudeza de cabelos hirsutos, saídos pelos rasgões de um barrete. Do meio do largo surgia o bocal da um poço, cujo balde, seguro por uma corda dó esparto, pendia de uma estaca. No chão estavam estendidos os andrajos das pobres da vizinhança, que vinham laválos ao pé dopoço, e nesse recin to os deixavam a enxugar juntamente com as enxe rgas dilaceradas e apodrecidas dos berços dos seus pequenos. A um canto do pátio pendia do muro uma corrente de ferro com que se tangia uma si neta interior. A este sinal via-se uma abertura daalvenaria rodar no muro um cilindro de madeira, que por um movimento vagaro so metia para dentro a sua superfície côncava e mostrava para fo ra o seu interior convexo. Pareciaquando isto se ouvia que o taciturno monstro entreabria a pálpebra, deixando ver uma órbita sem olho. Este aparelho chama-se a roda. A condessa pronunciou aí uma palavra, a que respondeu de dentro uma espécie de gemido, e foi esperar em seguida para junto da portanegra ao fundo do pátio.

Quando a porta se abriu e o primo da condessa lhe apertou pe la última vez a ruão, aslágrimas, que até aí conseguira dificultosamente reprimir, saltaram-lhe dos olhos. — Acha horrível, não é verdade? — perguntou-lhe ela com um sorriso em que transparecia a estranha luz da resignação das mártires antigas. — Que queria que eu fizesse,meu querido amigo? Matar-me? Prostituir-me à conveniência da sociedade? Não posso.

Falta-me o valor para sacrificar ao meu infortúnio a salvação da minha alma, e escuso dedizerlhe que me falta igualmente a intrepidez precisa para sacrificar ao sossego ordinário da vida o pudor do meu coração. Bem vê, pois, que aceitei a solução mais sua ve. Coitado! como lhe dói a tristeza do meu destino! Deixe estar: prometo-lhe morrer breve, se me nãosuceder aquela desgraça receada por Santa Teresa de Jesus: que o prazer de me sentir mor rer me não prolongue mais a vida!

Entregando-lhe em seguida o capuz e o manto de casimira em que fora envolvida:- Adeus, meu primo — disse-lhe ela deixando-se beijar na testa -, adeus! Peça a Deus que me perdoe, e aos vivos que me es queçam.Aos primeiros passos que ela deu para lá da porta, esta fechou-se do mesmo modo por que havia sido aberta, sem que ninguém mais fosse visto, tendo mostrado um buraco lôbrego, negro e pro fundo como a goela de um abismo, e a amante de Rytmel entrou noclaustro. Os ferrolhos interiores rangeram sucessivamente nos anéis, expedindo uns sons entrecortados, semelhantes a soluços. arrancados de uma garganta de ferro.O mascarado alto passou parte dessa noite na vila, esperando a mala-posta que partia àuma hora. Ao subirmos juntos à carrua gem ouvimos uma espécie de rebate em dois sinos de uma igreja. Perguntámos o que era. O deputado da localidade, que nos acom panhava no coupé, respondeu, atirando fora um fósforo com que acendera um charuto:

— São as carmelitas que pedem o socorro da caridade, porque não têm que comer.O cocheiro fez estalar o açoite, e a berlinda partiu a galope, aba fando o vozear entristecido das sinetas com o estrépito que ia fa zendo pelas calçadas estreitas e tortuosas da povoação.Pouco mais tenho que contar-lhe.

O conde de W... recebeu em Bruxelas uma carta de sua mulher contendo estas linhas: «Destituo-me voluntariamente da minha posição na sociedade. De todos os direitos que porventura pudesse ter, um só peço que não seja contestado: o direito de acabar.Suplico-lhe que me per mita desaparecer, e que acredite na sinceridade da minha gratidão eterna.»

O doutor está, como ele mesmo disse, nos hospitais de sangue do exército francês. Frederico Friedlann partiu repentinamente no mesmo dia em que lançou no correio a carta de F..., para ir incorporar-se na se gunda landwer do seu país.F... e Carlos Fradique Mendes achavam-se há dias numa quinta dos subúrbios de

(continua...)

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