Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear sem desconforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. “Estamos aqui tão bem! está um tempo tão lindo!” murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado. “Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!” Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Pôr todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva, que sortia as necessidades do meu coração, partira com o irmão par ao Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu... Parti eu para paris.

Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de frança, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202 – talvez pôr eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa, espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa! Eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:

-Eh, Fernandes!

Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina, pôr ele me Ter reconhecido! E atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais, que o escudeiro lhe passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:

-E Jacinto?

Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor pôr minha prima, e os dois filhos, que ele trazia escarranchados no pescoço.

-Ah que canalha! – exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. – É capaz de ser feliz!

-Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios...

-Indecentemente – murmurou Marizac muito sério.

– Que canalha!

Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarrilha: -Todo esse mundo circula...

-Madame de Oriol?

-Continua.

-Os Trèves? o Efraim?

-Continuam, todos três.

Lançou um gesto lânguido.

-Durante cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pó-de-arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno... e – e voilá!

-Dornan?

-Continua... Não o encontrei mais desde o 202... Mas vejo às vezes o nome dele, no Boulevard, com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito sutis.

-E o Psicólogo?... Ora, como se chamava ele?...

-Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinqüenta... Duquesas em camisa, almas nuas... coisas que se vendem bem!

Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o comboio entrou na estação de Biarritz: - e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:

-Até Paris!... Sempre rue Cambori.

Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, murmurando histórias muito sabidas, e coisas muito ditas, através dos sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, dum verde de resedá, verde-cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, pôr cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto espelho muito lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8384858687...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →