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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Estas preciosidades, embrulhadas em papéis de cor, atadas com fitinhas de seda, guarnecidas de tocantes dísticos - foram acondicionadas num forte caixote, que a minha prudência fez revestir de chapas de ferro. Depois cuidei da relíquia maior, a coroa de espinhos, fonte de celestiais mercês para a Titi - e de sonora pecúnia para mim, seu cavaleiro e seu romeiro.

Para a encaixotar, ambicionei uma madeira preclara e santa. Topsius aconselhava o cedro do Líbano - tão belo que, por ele, Salomão fez aliança com Hirão, Rei de Tiro. O jucundo Pote, porém, menos arqueológico, lembrou o honesto pinho de Flandres benzido pelo patriarca de Jerusalém. Eu diria à Titi que os pregos para o pregar tinham pertencido à Arca de Noé; que um ermitão os achara miraculosamente no Monte Arará; que a ferrugem que neles deixara o lodo primitivo, dissolvida em água benta, curava catarros... Tramamos estas cousas consideráveis, cervejando no Sinai.

Durante esta atarefada semana, o embrulho da coroa de espinhos permanecera na cômoda entre os dous castiçais de vidro; foi só na véspera de deixarmos Jerusalém que o encaixotei com carinho. Forrei a madeira de chita azul comprada na Via-Dolorosa; fiz fofo e doce o fundo do caixote, com uma camada de algodão mais branco que a neve do Carmelo; e coloquei dentro o adorável embrulho, sem o remexer, como Topsius o arranjara, no seu papel pardo e no seu nastro vermelho - porque estas mesmas dobras do papel vincadas em Jericó, este mesmo nó do nastro atado junto ao Jordão, teriam para a senhora D. Patrocínio um insubstituível sabor de devoção... O esguio Topsius considerava estes piedosos aprestos, fumando o seu cachimbo de louça.

- Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga lá amiguinho, diga lá! Então acha que eu posso afirmar à Titi que esta coroa de espinhos foi a mesma que...

O doutíssimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma solidíssima máxima:

- As relíquias, D. Raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Pode dizer à Titi que foi a mesma!

- Bendito sejas, doutor!

Nessa tarde, o erudito homem acompanhara aos túmulos dos reis a Comissão de Escavações. Eu parti, só, para o Horto das Oliveiras - porque não havia, em torno a Jerusalém, lugar de sombra onde mais gratamente, em tardes serenas, gozasse um pachorrento cachimbo.

Saí pela porta de Santo Estêvão; trotei pela ponte do Cédron; galguei o atalho entre piteiras até ao murozinho, caiado e aldeão, que cerra o jardim de Getsêmani. Empurrei a portinha verde, pintada de fresco, com a sua aldraba de cobre; e penetrei no pomar onde Jesus ajoelhou e gemeu sob a folhagem das oliveiras. Ali vivem ainda essas árvores santas, que ramalharam embaladoramente sobre a sua cabeça fatigada do mundo! São oito, negras, carcomidas pela decrepitude, escoradas com estacas de madeira, amodorradas, já esquecidas dessa noite de Nizam em que os anjos, voando sem rumor, espreitavam através dos seus ramos as desconsolações humanas do filho de Deus... Nos buracos dos seus troncos estão guardados enxós e podões; nas pontas dos galhos raras e tênues folhinhas, de um verde sem seiva, tremem e mal vivem como os sorrisos de um moribundo.

E em redor que hortazinha caridosamente regada, estrumada com devoção! Em canteiros, com sebes de alfena, verdejam frescas alfaces; as ruazinhas areadas não têm uma folha murcha que lhes macule o asseio de capela; rente aos muros, onde rebrilham em nichos doze apóstolos de louça, correm alfobres de cebolinho e cenoura, fechados por cheirosa alfazema... Por que não floria aqui, em tempos de Jesus, tão suave quintal? Talvez a plácida ordem destes úteis legumes calmasse a tormenta do seu coração!

Sentei-me debaixo da mais velha oliveira. O frade guardião, risonho santo de barbas sem fim, regava com o hábito arregaçado os seus vasos de rainúnculos. A tarde caia com melancólico esplendor.

E, enchendo o cachimbo, eu sorria aos meus pensamentos. Sim! Ao outro dia deixaria essa cinzenta cidade, que lá embaixo se agachava entre os seus muros fúnebres, como viúva que não quer ser consolada... Depois uma manhã, cortando a vaga azul, avistaria a serra fresca de Sintra; as gaivotas da pátria vinham dar-me o grito de boa acolhida, esvoaçando em torno aos mastros; Lisboa pouco a pouco surgia, com as suas brancas caliças, a erva nos seus telhados, indolente e doce aos meus olhos... Berrando "oh Titi, oh Titi!", eu trepava as escadas de pedra da nossa casa em Santana; e a Titi, com fios de baba no queixo, punha-se a tremer diante da grande relíquia que eu lhe oferecia, modesto. Então, na presença de testemunhas celestes, de São Pedro, de Nossa Senhora do Patrocínio, de São Casimiro e de São José, ela chamava-me "seu filho, seu herdeiro!" E ao outro dia começava a amarelecer, a definhar, a gemer... Oh delícia!

(continua...)

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