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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Galopei, a tremer... E logo a vi, lá embaixo, junto à ravina do Cédron, sombria, atulhada de conventos e agachada nas suas muralhas caducas - como uma pobre, coberta de piolhos, que para morrer se embrulha a um canto nos farrapos do seu mantéu.

Bem depressa, transpassada a Porta de Damasco, as patas dos nossos cavalos atroaram o lajedo da Rua Cristã; rente ao muro um frade gordo, com o breviário e o guarda-sol de paninho entalados sob o braço, ia sorvendo uma pitada estrondosa. Apeamos no Hotel do Mediterrâneo; no esguio pátio, sob um anúncio das "Pílulas Holloway", um inglês, com um quadrado de vidro colado ao olho claro, os sapatões atirados para cima do divã de chita, lia o Times; por trás de uma varanda aberta, onde secavam ceroulas brancas com nódoas de café, uma goela roufenha vozeava: C'est le beau Nicolas, holà!... Ah! era esta, era esta, a Jerusalém católica!... Depois ao penetrar no nosso quarto, claro e alegrado pelo tabique de ramagens azuis, ainda um instante me rebrilhou na memória certa sala, com candelabros de ouro e uma estátua de Augusto, onde um homem togado estendia o braço e dizia: "César conhece-me bem!"

Corri logo à janela a sorver o ar vivo da moderna Sião. Lá estava o convento com as suas persianas verdes fechadas, e as goteiras agora mudas nesta tarde de sol e doçura... Entre socalcos de jardins, lá se torciam as escadinhas, cruzadas por franciscanos de alpercatas, por judeus magros de sujas melenas... E que repouso na frescura destas paredes de cela, depois das estradas abrasadas de Samaria! Fui apalpar a cama fofa. Abri o guarda-roupa de mogno. Fiz uma carícia leve ao embrulhinho da camisa de Mary; redondo e gracioso com o seu nastro vermelho, aninhado entre peúgas.

Neste instante o jucundo Pote entrou a trazer-me o precioso embrulho da coroa de espinhos, redondo e nítido com o seu nastro vermelho; e alegremente deu-me as novas de Jerusalém. Colhera-as do barbeiro da Via-Dolorosa e eram consideráveis. De Constantinopla viera um firman exilando o patriarca grego, pobre velho evangélico, com uma doença de fígado, que socorria os pobres. O senhor Cônsul Damiani afirmara na loja de relíquias da Rua Armênia, batendo o pé, que antes do dia de Reis, por causa da birra do murro entre os franciscanos e a Missão Protestante, a Itália tomaria armas contra a Alemanha. Em Betlém, na Igreja da Natividade, um padre latino numa bulha, ao benzer hóstias, rachara a cabeça de um padre copta com uma tocha de cera... E enfim, novidade mais jubilosa, abrira-se para alegria de Sião, ao pé da porta de Herodes, deitando sobre o Vale de Josafate, um café com bilhares, chamado o Retiro do Sinai!

Subitamente, saudades dolentes do passado, cinzas que me cobriam a alma, foram varridas por um fresco vento de mocidade e de modernidade... Pulei sobre o ladrilho sonoro:

- Viva o belo Retiro! A ele! Às iscas! À carambola! Irra! Que estava morto por me refestelar! E depois às mulherinhas!... Põe aí o embrulho da coroa, belo Pote... Isso significa muito bago! Jesus, o que aí a Titi se vai babar!... Planta-o em cima da cômoda, entre os castiçais... E logo, depois da comidinha, Potezinho, para o Retiro do Sinai!

Justamente o sábio Topsius entrava esbaforido, com uma formosa nova histórica! Durante a nossa romagem a Galiléia a Comissão de Escavações Bíblicas encontrara, sob lixos seculares, uma das lápides de mármore que, segundo Josefo e Fílon e os talmudes, se erguiam no templo, junto à Porta Bela, com uma inscrição proibindo a entrada aos gentílicos... E ele instava que marchássemos, engolida a sopa, a pasmar para essa maravilha... Um momento ainda me rebrilhou na memória uma porta, bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os seus quatorze degraus de mármore verde de Numídia...

Mas sacudi desabridamente os braços, numa revolta:

- Não quero! - gritei. - Estou farto!... Irra! E aqui lho declaro, Topsius, solenemente; de hoje em diante não torno a ver nem mais um pedregulho, nem mais um sítio de religião... Irra! Tenho a minha dose; e forte, muito forte, doutor!

O sábio, enfiado, abalou com a rabona colada às nádegas!

Nessa semana ocupei-me em documentar e empacotar as relíquias menores que destinava à tia Patrocínio. Copiosas e bem preciosas eram elas - e com devotíssimo lustre brilhariam no tesouro da mais orgulhosa Sé! Além das que Sião importa de Marselha em caixotes - rosários, bentinhos, medalhas, escapulários; além das que fornecem no Santo Sepulcro os vendilhões - frascos de água do Jordão, pedrinhas da Via-Dolorosa, azeitonas do Monte Olivete, conchas do Lago de Genesaré - eu levava-lhe outras raras, peregrinas, inéditas... Era uma tabuinha aplainada por São

José; duas palhinhas do curral onde nasceu o Senhor; um bocadinho do cântaro com que a Virgem ia à fonte; uma ferradura do burrinho em que fugiu a Santa Família para a terra do Egito; e um prego torto e ferrugento...

(continua...)

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