Por Eça de Queirós (1925)
Por isso D. Joanna Coutinho era muito estimada. Apesar de ser casada com um velho monotono e passivo e de ter, com os seus esplendidos olhos negros, a sua alta estatura airosa, inspirado um bonito par de paixões era honesta. Tinha grandes amizades femininas : andava ás vezes durante um inverno inteiro com alguma rapariga que ninguem conhecia, desentranhada dos fundos neutros da burguezia, e que ella trazia a seu lado no landau, installava no melhor logar do seu camarote em S. Carlos ou no centro da sua sala, ás terças-feiras, cocando-a sempre com olhos brilhantes, erguendo-se de repente para lhe ir murmurar um segredo, com rizinhos quentes, muito zelosa dos Iseus olhares, dos seus apertos de mão. Depois, no inverno seguinte, outra favorita reinava » ; as suas creadas tinham a reputagão de bonitas e os rapazes costumavam, ao entrar, demorar-se nos corredores, tirando o paletot devagar, na esperança de entrevêr algum dos rostinhos maganos das escravas de D. Joanna ». Estas circumstancias davam logar a sorrisos malignos : chamava-se-lhe, rindo : D. Juanna. Mas ella era tão amavel, tinha um sorriso tão bom, os seus apertos de mão faziam-lhe tilintar os braceletes d'um modo tão attrahente—sempre tão prompta a servir d'empenho a um ministro, a organisar um bazar de caridade, a reunir um publico para a leitura d'um poema triste, que — como dizia Bento Correia — todo o mundo tinha a caridade de não aprofundar ».
Seu marido, de resto, parecia contente e orgulhoso d'ella. Era um homemzito amarello e silencioso, a quem os convidados, ao entrar, davam um aperto de mão molle e as senhoras mostravam os dentinhos n'um sorriso curto ; depois, não se reparava mais n'elle. Muito methodico, muito economico, toda a noite errava subtilmente pela casa, arranjando uma cadeira, diminuindo no corredor um bico de gaz, levantando um paletot cahido. Di Lia-se geralmente que soffria d'um aneurisma : dous sujeitos, ambos empreg ados no Ministerio do Reino, ambos graves, seguram com impaciencia a marcha da, enfermidade, estudando-lhe a amarellidão, os cangaços, na esperança de ainda um dia gozarem os dez contos de réis de renda da viuva. Dizia-se porém que, morto o marido, D, Joanna Coutinho se retiraria a um convento — on.de o numero e a edade das educandas satisfariam amplamente as suas necessidades de ternura feminina.
Davam nove horas no relogio do corredor quan•• do Meirinho e Arthua entraram, para despir os paletots, n'um pequeno gabinete alumiado por ser pentinas, ao lado d'um antigo tremó de provin cia. Arthur, muito nervoso, encharcado d'agua de colonia, hirto na sua casaca, com uma compressão de medo no estomago, calçava, um pouco tremulo, as luvas côr de palha, quando ouviu, sahindo d'uma sala proxima, um zurrar clamoroso de jumento ! Voltou-se, espantado, para Meirinho . . . Mas este apenas sorriu, alteou o peitilho, penteou cuidadosamente ao espelho a bella barba e disse :
—É perfeito, hein ?
Ao lado, o burro zurrava convulsivamente e aquelle ronco bestial, vindo atravez d'um repos teiro de fazenda escura, com um monogramma bor dado sob uma coroa, dava a Arthur a impressão d'uma estrebaria installada n'uma soirée.
—É o nosso amigo — disse ainda Meirinho. Deu um puxão á casaca e ergueu o reposteiro.
Era com effeito o Padilhño : no meio da sala, torcido sobre uma cadeira, com as mãos nas ilhargas, a face roxa, fazia a sua grande imitação do burro com cio » !
Admiravam-no ! Sujeitos graves, as mãos atraz das costas, tinham nas faces burocraticas expres soes approvadoras e profundas ; dos sofás, na pe numbra, estendiam-se magros pescoços avelhentados, boccas de poucos dentes entreabertas de pasmo; e as senhoras, de pé, com o peito alto, a cabeça de lado, o rosto luzidio de satisfação, saboreavam com rizinhos calidos a sensação de bestialidade que es palhava na sala aquelle rouco bramar de cio !
— Muito bem ! Muito bem ! Magnifico !
Elle erguera-se com os olhos injectados, arquejante, alargando o collarinho, murmurando :
— Esta do burro, mata-me !
Trouxeram-lhe agua com assucar ; as senhoras cercavam-no, electrisadas, como procurando n'ellQ o cheiro, o calor, a excitação d'estio do animal, E pediam-lhe que fizesse a Emitia das Neves ! Só u-m instantinho ! Padilhão repellia-as, quasi brutalmen•• te, inchado, bufando, e foi refugiar-se n'um sofá, ao pé de duas velhas, abanando-se com o lenço :
— Isto não é forja de ferreiro ! Isto não é forja de ferreiro ! Esta do burro, !
Meirinho então, correndo para Joanna Coutinho que atravessava a sala, apresentou Arthur. Ella deu-lhe um grande sha7ce,-hands varonil, com um sorriso amigo que lhe dexq cobriu os dentes até ás gengivas :
— Muito prazer ! . . . admiravel o Padilhão ! Tem-nos divertido immenso !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.