Por Eça de Queirós (1887)
Quando nessa noite acampamos em Betel, vinha a lua cheia saindo por trás dos montes negros de Gileade... O festivo Pote mostrou-me logo o chão sagrado em que Jacó, pastor de Bersabé, tendo adormecido sobre uma rocha, vira uma escada que faiscava, fincada a seus pés e arrimada às estrelas, por onde ascendiam e baixavam, entre terra e céu, anjos calados, com as asas fechadas... Eu bocejei formidavelmente e rosnei: - “Tem seu chic!...”
E assim rosnando e bocejando atravessei a terra dos prodígios. A graça dos vales foi-me tão fastidiosa como a santidade das ruínas. No poço de Jacó, sentado nas mesmas pedras em que Jesus, cansado como eu da calma destas estradas e como eu bebendo do cântaro de uma samaritana, ensinara a nova e pura maneira de adorar; nas encostas do Carmelo, numa cela de mosteiro, ouvindo de noite ramalhar os cedros que abrigaram Elias, e gemerem embaixo as ondas, vassalas de Hirão, Rei de Tiro; galopando com o albornoz ao vento pela planície de Esdrelon; remando docemente no Lago de Genesaré, coberto de silêncio e de luz - sempre o tédio marchou a meu lado como companheiro fiel, que a cada passo me apertava ao seu peito mole, debaixo do seu manto pardo...
Às vezes, porém, uma saudade fina e gostosa, vinda do remoto passado, levantava de leve a minha alma, como uma aragem lenta faz a uma cortina muito pesada... E então, fumando diante das tendas, trotando pelo leito seco das torrentes, eu revia, com deleite, pedaços soltos dessa Antigüidade que me apaixonara: a terma romana, onde uma criatura maravilhosa de mitra amarela se ofertava, lasciva e pontifical; o formoso Manassés, levando a mão à espada cheia de pedrarias; mercadores, no templo, desdobrando os brocados de Babilônia; a sentença do Rabi com um traço vermelho, num pilar de pedra, à porta Judiciária; ruas iluminadas, gregos dançando a calabida... E era logo um desejo angustioso de remergulhar nesse mundo irrecuperável. Cousa risível! Eu, Raposo e bacharel, no farto gozo de todos os confortos da civilização - tinha saudade dessa bárbara Jerusalém, que habitara num dia do mês de Nizam sendo Pôncio Pilatos procurador da Judéia!
Depois estas memórias esmoreciam, como fogos a que falta a lenha. Na minha alma só restavam cinzas - e, diante das ruínas do Monte Ebal, ou sob os pomares que perfumam Siquém, a levítica, recomeçava a bocejar.
Quando chegamos a Nazaré, que aparece na desolação da Palestina como um ramalhete pousado na pedra de uma sepultura - nem me interessaram as lindas judias, por quem se banhou de ternura o coração de Santo Antonino. Com a sua cântara vermelha ao ombro, elas subiam por entre os sicômoros à fonte onde Maria, mãe de Jesus, ia todas as tardes, cantando como estas e como estas vestida de branco... O jucundo Pote, torcendo os bigodes, murmurava-lhes madrigais; elas sorriam, baixando as pestanas pesadas e meigas. Era diante desta suave modéstia que Santo Antonino, apoiado ao seu bordão, sacudindo a sua longa barba, suspirava: "Oh virtudes claras, herdadas de Maria cheia de graça!" Eu, por mim, rosnava secamente: "lambisgóias"!
Através de vielas onde a vinha e a figueira abrigam casas humildes, como convém à doce aldeia daquele que ensinou a humildade, trepamos ao cimo de Nazaré, batido sempre do largo vento que sopra das iduméias. Aí Topsius tirou o barrete saudando essas planícies, esses longes, que decerto Jesus vinha contemplar, concebendo diante da sua luz e da sua graça as incomparáveis belezas do reino de Deus... O dedo do douto historiador ia-me apontando todos os lugares religiosos - cujos nomes sonoros caem na alma com uma solenidade de profecia, ou com um fragor de batalha: Esdrelon, Endor, Sulém, Tabor... Eu olhava, enrolando um cigarro. Sobre o Carmelo sorria uma brancura de neve; as planícies da Pérea fulguravam, rolando uma poeira de ouro; o Golfo de Caifa era todo azul; uma tristeza cobria ao longe as montanhas de Samaria; grandes águias torneavam sobre os vales... Bocejando, rosnei:
- Vistazinha catita!
Uma madrugada, enfim, recomeçamos a descer para Jerusalém. Desde Samaria a Ramá fomos alagados por esses vastos e negros chuveiros da Síria, que armam logo torrentes rugindo entre as rochas, sob os aloendros em flor; depois, junto à colina de Gibeá onde outrora no seu jardim, entre o louro e o cipreste, Davi tangia harpa olhando Sião - tudo se vestiu de serenidade e de azul. E uma inquietação engolfou-se em minha alma, como um vento triste numa ruína... Eu ia avistar Jerusalém! Mas - qual? Seria a mesma que vira um dia, resplandecendo suntuosamente ao sol de Nizam, com as torres formidáveis, o templo cor de ouro e cor de neve, Acra cheia de palácios, Bezeta regada pelas águas de Enrogel?...
- El-Kurds! El-Kurds! - gritou o velho beduíno, com a lança no ar, anunciando pela sua alcunha muçulmana a cidade do Senhor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.