Por Eça de Queirós (1925)
Arthur, um momento surprehendido, foi logo ao bahú tirar as libras d'um cartucho. E Meirinho, fazendo-as escorregar negligentemente para o largo bolso do robe-de-chambre :
É d'um ridiculo, hein Cousas do meu pro. curador ! — Tornou a rir ambiguamente : — E en-
zgo
tão ás nove, de casaca. gravata preta; é escusado gravata branca . . .
Sorveu outro riso, e já com a mão no fecho da porta :
—A D. Joanna Coutinho ha-de estimar muito. Já fallei nos calemboureinhos. Ella já sabe, ella já sabe !
Riu de novo, e com um deslisar doce das chineIas, sahiu, dizendo :
— Au revoir, cher !
Arthur ficou extremamente agitado. Ia vêr em a fim essa cousa extraordinaria : a SOCIEDADE !
Imaginava vagos dialogos, phrases originaes que diria, posições em que se sentaria : e sentia já umas indefinidas colicas a que se misturava um sopro de vaidade alegre e de timidez retrahente. Se DIIa lá estivesse? Ousaria lembrar-lhe a estação d'Ovar? E fumando, pelo quarto, perdia-se em imaginações fluctuantes, em que se formava e desmanchava o romance fragmentado dos seus amores com DIIa — desde o primeiro olhar até aos ciumes do marido, até a um duello possivel ! .
N 'esse momento um creado entrou com uma carta : era do snr. Melchior e o gallego esperava a resposta. Amigo Arthur — dizia o jornalista — « hoje, por acaso, eu e outro amigo combinamos c uma partida ao Dáfundo, com damas hespanholas. Despezas divididas como n'um pic-nic d'amigos,
« Quer você vir ? O outro rapaz é conhecido, é dos
« nossos. Resposta. O 'tendez-vous é ás 9 em ponto « na Casa Havaneza — P. S, —A formosa Concha está prompta a ir e você será o seu cacaliere ! Viva
Arthur ficou com o bilhete na mão, hesitando : na letra irregular e desmanchada de Melchior entrevia como que uma impetuosidade de troca, desalinhos de toilette. A idéa da Orgia apparecia-lhe toda reluzente de tentações : n'uma abundancia de luzes de gaz, jactos dourados de Champagne saltando dos gargalos estreitos, mulheres de decotes atrevidos can- tando, valsas improvisadas fazendo saltar os crystaes sobre a mesa e em que o frou-frou das sêdas se misturava ao estalar dos beijos ! Desejava muito ir — mas a sua promessa a um homem tão bem relacionado como Meirinho . . A esperança de a vêr, a
Respondeu, não sem orgulho, «que sentia muito, mas já estava convidado para uma soirée no High.
A casa de D, Joanna Coutinho, a Santa Izabel, era um antigo predio, com um pateo lageado de pe r dra miuda, onde ás vezes se via, a um canto, desatrellada, a carroça da agaa.
Casada com um fidalgo da provincia, rico e já
d'edade, D. Joanna Coatinho recebia ás terças-feiras : aquellas soirées constituinm a sua posição social. De vez em quando, com a prudencia de quem esperta uma lareira que tende a esmorecer, alguns amigos (Bento Correia dizia alguns devotos faziam publicar nos jorna€ Y.s — que as deliciosas tergas-feiras da Ex.ma Snr.a D. Joanna Coutinho continuavam a ser a grande attracção da sociedade elegante — Dizia-se gel almente que eram soirées ecleticas » : viam-se, effeito, nas tres salas seguidas, velhos fidalgos, novos deputados, jorna•stas, um ou outro banqueiro, algum ministro, poetas e estrangeiros. Ás vezos recitava-se ; quando do. avam as raparigas, va Isava-se ao som do piano ; e como seu marido conservava muitas relações na provincia, via-se tambem e LTar entre os grupos caracteristicamente lisboetas, algum sujeito embezerrado, de cores sadias, chegado do fundo da Beira ou das alturas de Traz-os-Montes, incommodado na casaca vincada das dobras da mala. O que sobretudo torna va estas 80irée8 estimadas era a disposição da mobilia e a moderação da luz : as cadeiras e os sofás, cober tos, de verão ou d'inverno, das suas housses de fustão branco, estavam dispostos de modo a formar retiros favoraveis á intimidt de d'um grupo ou d'uma coterie, recantos obscuros, excellenteg para o dialogo murmurado d'um par sentimental. Ás vezes, via-se assim, n'um canto mal alumiado, um peitilho de ca, misa muito chegado a um leque aberto : — era um escandaloziuho em plena funcção, como dizia o ma,• ligno Xavier ; otitras vezes, d'uma d'aquellas alcovas — Bento Correia dizia, impudentemente, as alcovas de D. Joanna » — via-se erguer um sujeito, com o rosto muito serio, entumecido, escarlate, batendo as palpebras, como um homem mal acordado e a quem se desejaria perguntar : fez a sua somneca, hein ? — As luzes, lampadas Carcel de globo fosco, com fortes abats-jours, concentravam toda a claridade no meio d.a sala, sobre innocentes albuns e honestas vistas stereoscopicas, deixando junto ás paredes uma zona de sombra adoravel : assim não era necessario ág senhoras, como se dizia, puxar muito á toilette » : ligeiras modificações d'enfeites, no mesmo vestido, bastavam durante um trimestre ; além d'isso, a penumbra favoreceia os rostos muito pintados e as bellezas decahidas tomavam, n'aquelle esbatido doce de tons neutros, um encanto imprevisto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.