Por Eça de Queirós (1901)
-Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que pôr aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem!
Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência:
-Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer pôr aí, pelos sítios, que El-Rei D. Sebastião voltara?
O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a percussão dos seus pensamentos:
-Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa...Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se esconde bom senhor!
E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:
-Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciência, pensa que El-Rei D. Sebastião não morreu na batalha?
O velho ergueu para mim a face, que enrugara numa desconfiança:
-Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e V. Srª tem pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o paizinho doente... Mas o mal já vai pela serra abaixo com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Pôr cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo!
Com a magra mão lançou um gesto para que seguíssemos. E já passávamos o cruzeiro, quando o seu brado ardente de novo reboou, com solenidade cava:
-Bendito seja o Pai dos Pobres!
Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as aclamações dum povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino um Sebastianista.
-Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu.. Ou antes a minha, porque eu espero uma D. Sebastiana... E tu, felizardo?
-Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o último Jacinto; Jacinto ponto final... Que casa é aquela com os dois torreões?
-A Flor da Malva.
Jacinto tirou o relógio:
-São três horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este sítio.
Sobre um outeirinho, afastada da estrada pôr arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para o Oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado pôr dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes raízes descarnadas da grande árvore, um pequeno esperava segurando um burro pela arreata, -Está pôr aí o Manuel da Porta?
-Ainda agora subiu pela alameda.
-Bem: empurra lá o portão.
E subimos, pôr uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota de cão, de onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o Tritão, que eu logo sosseguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavalos.
-Como está o tio Adrião?
Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:
-E então vossa excelência, bem? A Srª D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.
Seguimos pôr ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado todo.
-Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma criancita ao colo... Agora anda na paixão deste Josezinho.
Mas quando chegamos ao laranjal, à beira da larga rua da Quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei: - Eh, prima Joaninha!...
-Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...
Descemos a rua, entre árvores, que a cobriam com as densas ramas encruzadas. Uma fresca, límpida água de regra corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com doçura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e botões de ouro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.