Por Eça de Queirós (1887)
- Era necessário, para bem da terra, que se cumprissem as profecias! Durante duas horas José de Ramata orou, prostrado. Não sei se o Senhor lhe falou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: "Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!" Depois, por sua ordem, enterramos o Rabi numa caverna que ele tem, talhada na rocha, por trás do moinho...
Atravessou o pátio, tomou a sua lâmpada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gade, erguendo a face, o chamou através dos seus soluços:
- Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o outro túmulo, onde as mulheres de Galiléia o deixaram, ligado e envolvidos em panos, com aloés e com nardo?
O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:
- Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...
Então Topsius arrastou-me pelo braço, tão arrebatadamente, que tropeçávamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros caídos... E vi uma praça, rodeada de pálidos arcos, triste e fria, com erva entre as fendas das lajes dessoldadas, como numa cidade abandonada. Topsius estacou; os seus óculos faiscavam:
- Teodorico, a noite termina; vamos partir de Jerusalém!... A nossa jornada ao passado acabou... A lenda inicial do cristianismo está feita, vai findar o mundo antigo!
Eu considerei, assombrado e arrepiado, o douto historiador. Os seus cabelos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente saía dos seus finos lábios retumbava, terrível e enorme, caindo sobre o meu coração:
- Depois de amanhã, quando acabar o Sabá, as mulheres de Galiléia voltarão ao sepulcro de José de Ramata, onde deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!... "Desapareceu, não está aqui!..." Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém – “ressuscitou, ressuscitou!” E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais à humanidade!
E, atirando os braços ao ar, correu através da praça - onde os pilares de mármore começavam a tombar, sem ruído e molemente. Arquejando, paramos no portão de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de cadeias partidas, segurava os nossos cavalos. Montamos. Com um fragor de pedras levadas numa torrente, varamos a Porta de Ouro; e galopamos para Jericó, pela estrada romana de Siquém, tão vertiginosamente que não sentíamos as ferraduras ferir as lajes negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camelos na debandada de um povo. As ventas da minha égua dardejavam jactos de fumo avermelhado; e eu agarrava-me às crinas, tonto, como se rolasse entre nuvens...
De repente avistamos, alargada, cavada até às serras de Moabe, a planície de Canaã. O nosso acampamento alvejava junto às brasas dormentes da fogueira. Os cavalos estacaram, tremendo. Corremos às tendas; sobre a mesa, a vela que Topsius acendera para se vestir, havia mil e oitocentos anos, morria num fogacho lívido... E derreado da infinita jornada, atirei-me para o catre, sem mesmo descalçar as botas brancas de pó...
Imediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrara na tenda, esparzindo um brilho de ouro...
Ergui-me, assustado. Num largo raio de sol, vindo dos montes de Moabe, o jucundo Pote entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na mão!
Arrojei a manta, arredei os cabelos, para verificar melhor a mudança terrível que desde a véspera se fizera no universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne, com que brindáramos à ciência e à religião. O embrulho da coroa de espinhos pousava à minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola, e com um lenço amarrado na testa, bocejava, pondo os óculos de ouro no bico. E o risonho Pote, censurando a nossa preguiça, queria saber se apetecíamos nessa manhã - "tapioca ou café".
Deixei sair deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no júbilo triunfal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu século, pulei sobre o colchão com a fralda ao vento, bradei:
- Tapioca, meu Pote! Uma tapioca bem docinha e molezinha, que saiba bem ao meu Portugal...
IV
Ao outro dia, que fora um radioso domingo, levantamos de Jericó as nossas tendas; e caminhando com o sol para ocidente, pelo Vale de Querite, começamos a romagem de Galiléia.
Mas ou fosse que a consoladora fonte da admiração houvesse secado dentro em mim, ou que a minha alma, arrebatada um momento aos cimos da história e batida aí por ásperas rajadas de amoção, não se pudesse já aprazer nestes quietos e ermos caminhos da Síria - senti sempre indiferença e cansaço, do país de Efraim ao país de Zebelon.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.