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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur, instinctivamente, recuou com nojo. O outro teve um movimentozinho de quadris, tocou lhe no joelho e muito canalhamente :

— Não tenha medo, menino !

Arthur comprehendeu, ergueu-se e com os punhos cerrados :

Seu mariola !

— Então, menino, então ! — disse o outro trane quillamente.

Arthur berrou pelo creado, atirou uma placa para a mesa e sahiu furioso.

O nevoeiro cerrava; e Arthur, galgando o Chiado) impellido pela indignação, ia murmurando ; — Canalha de cidade !

D'ahi a dias, de manhã, revia as provas do! Esmaltes e Joias, quando a porta se abriu discreta. mente e Meirinho entrou, pedindo muitas licenças envolvido no seu belo robe-dc, chambre de ramagens, o aspecto mais risonho, mais serviçal.

Se estava a trabalhar, não o queria incommodar ! A revêr as provinhas, hein ? Examinou-as por cima do hombro d'Arthur, sem o deixar levantar, dizendo :

— Por quem é, por quem é, patricio ! Eu não vim incommodar ! Bonito typo; elzeviriano, não ? É muito chic. Versinhos d'amor, hein Seu maganão ! . . Ora vamos a vêr, vamos a vêr. — E inclinava o rosto para escutar, com extasi.

Arthur, lisonjeado, leu, na folha que revia, algumas quadras ás Collinas de Santo Estevam — « que era lá nos seus sitios :

Oh ! colliff8s verde-negras Onde se escondem casaes,

Pondo brancuras de cal

Nos ramos dos pinheiraes

Collinas de Santo Estevam,

Onde eu á tarde passeio,

Colhendo nas nuvens brancas Motivos de devaneio

Meirinho achou « d'appetite E sorrindo maficiosamente, quiz saber se elle não fazia ás vezes « versinhos frescos », como os do Bocage, por exemPIO .

Arthur córou como uma virgem : de certo que não, que horror !

— Pois têm seu cabimento — disse Meirinho com um ar entendido. Eu pello-me ! E olhe que na sociedade gosta-se ! Gosta-se ! Já se sabe, nada de grossa indecencia ! No genero do Padilhão. O Padilhão para isso é um Deus ! Conhece o Botão de Rosa, do Padilhão ? Não conhece ? — E p»tecia admirado — Pois olhe, é fallado, e como o amigo é litterato . . . Mas em Paris é que ha meninos para isso ! Oh . —- e revirava os olhos — E poetas de fama ! São muito apreciados. É muito chic !

Arthur, ainda vermelho, estava indignado. Havia na voz compenetrada, nos movimentos d'olhos de Meirinho, fazendo o elogio da poesia obscena, uma satisfação langorosa que lhe lembrava, por vagas semelhanças, o velho do café do Rocio ; e aquellas opiniões estupidas faziam parecer mais irri tante a correcção da sua barba e o catitismo do seu bello robe-de•chambre de ramagens.

Meirinho passou o lenço de monogramma bordado pelo nariz, e mudando de tom :

— Pois eu vinha saber se o amigo quer ir hoje á D. Joanna Coutinho

Que surpreza ! Porém, á alegria repentina que lhe veio, misturava-se um vago medo que lhe fez dizer, sem saber porquê :

Não, hoje . . .

Arrependeu-se logo. Queria revogar a palavra.

Remexia nervosamente nag folhas impressas do livro, com as orelhas escarlates.

Meirinho exclamou :

— Qual! O amigo não tem que fazer. Eu já fallei á D. Joanna: ella tem immenso gosto... Recita-se, naturalmente. É necessario levar uma poesiazinha . . .

Arthur, por fim, aceitou, reconhecido. E para esconder o seu enthusiasmo provinciano, perguntou a que horas devia ir, quem estaria . . .

— Ah, — fez Meirinho — talvez lá encontre a tal senhora que mora em S. Bento. Se é pessoa de sociedade, uma ou outra terça-feira, deve lá ir. Vai lá tudo t

Arthur fez-se vermelho de prazer. Calculou logo que devia ir comprar luvas côr de palha, uma flôr . Sentia uma nova estima pelo Meirinho : era um bom amigo, este ; pensava mesmo em lhe dedicar uma poesia no livro . . ,

— Como o tempo melhorou, hein ! — exclamou Meirinho que se approximara da janella.

De manhã ainda choviscara, mas agora o céu azul, d'um azul terno e humido, reluzia entre largas nuvens algodoadas que a luz orlava d'uma tonalidade macia de leite.

Arthur abriu a ianella. Ao contentamento do bonito dia, misturava-se a alegria d'ir á soirée : sentia-se vagamente enternecido. Via-se lá, n'uma sala rica, onde caudas de sêda rugem sobre os tapetes,

fallando-lhe baixo, a ma, muito junto do leque aberto sobre o lindo rosto cóiado de sensações doces. Que recitaria

— Recita-se, hein — perguntou ainda a Meirinho.

— Costuma-se — disse o outro, que parecia distrahido, passeando pelo quarto, afagando a barba, apertando os cordões do robe-de-chambre. Ás vezes parava, sorria para Arthur, cerrava os olhos, dava alguns pa.ssos, curvado para as suas chinelas bordadas. De repente disse :

— Então ás nove, de casaca

Dirigiu-se para a porta; mas parando, com um grande gesto :

— Homem, esquecia-me ! — E riu baixo um mo. mento, como se fosse dizer alguma cousa de muito comico : — Succede-me uma historia engraçada, Esperava ahi hoje uns dinheiros . . . Tem graça: não Cousas do paiz É d'um ridiculo t Esperava um dinheiro Pois senhores, descui. dam-se . . . E aqui estou eu . Tem o amigo de} libras, até ámanhã ?

(continua...)

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