Por Eça de Queirós (1901)
-Ó! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!
E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto, e lhe chamara uma lavradeirona. Com efeito, era grande e forte a Joaninha. Mas a fotografia datada do seu tempo de viço rústico, quando ela era apenas uma bela, forte e sã planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia – e a alma que nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.
A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca que tornava doce, como diz o velho Eurípedes ou o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve, e roçava-nos com uma carícia quase alada. O vale parecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras tenras! Os nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da manhã adorável. E não sei, nunca soube, que plantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que tantas vezes sentira, naquele caminho, ao começar o Outono.
-Que delicioso dia! – murmurou Jacinto. – Este caminho para a Flor da Malva é o caminho do Céu... Ó Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão doce, tão bom?
Eu sorri, com certo pensamento:
-Não sei... É talvez já o cheiro do Céu!
Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:
-Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais deliciosos de Portugal... Hei de pedir à prima Joaninha que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma coisa de celeste. Também lhe hei de pedir que te mande o doce. Ele ria:
-Será explorar demais a prima Joaninha.
E eu (pôr quê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois versos duma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio:
-Manda-lhe um servo querido,
Bem hajas dona formosa!
E que lhe entregue um anel
E com um anel uma rosa.
Jacinto riu alegremente:
-Zé Fernandes, seria excessivo, só pôr causa de meia dúzia de pêssegos, e dum boião de doce.
Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da Quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para a taberna do Torto, pôr causa daquele vinhinho branco, que sempre, quando pôr ali a levo, a minha alma me pede. O meu Príncipe reprovou, indignado:
-Ó! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almoço, vais beber vinho branco?
-É um costumezinho antigo... Aqui à taberninha do Torto...Um decilitrozinho... A almazinha assim, mo pede.
E paramos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.
-Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia.
Depois dum pálido protesto, o meu Príncipe também quis, mirou o límpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo, com delícia, e um estalinho de alto apreço.
-Delicioso vinho!... Hei de querer deste vinho em Tormes...É perfeito.
-Hem? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!...Encha lá outra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui é o Sr. D. Jacinto, o fidalgo de Tormes.
Então, de trás da ombreira da taberna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente:
-Bendito seja o Pai dos Pobres!
E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos dum negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.
-Pois aqui o tem, o senhor Jacinto, que corara, embaraçado.
-Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez pôr aí todo esse bem à pobreza.
O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e quase negro duma manga muito curta.
-A mão!
E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:
-Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!
Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.