Por Eça de Queirós (1925)
Quando o seu furor se evaporou, Arthur reparou no republicano, no Nazareno, que, ao lado, com a chavena defronte, fumava, a cabeça encostada á parede, as lunetas reluzindo sombriamente. Os burguezes do Universal tinham-no indignado tanto que sentiu, n'um impulso, uma sympathia ardente por aquelle homem, hostil á burguezia, que fallava nos Clubs contra ella e lhe preparava a morte. Depois das faces alvares que tinham rido do calembour do Bento Correia, achava uma alta expressão intelligente, critica, n'aquella physionomia secca de jacobino, que tomava o seu café com uma mansidão philosophica. Como o seu drama, que era a glorificação democratica do genio plebeu, agradaria áquelle republicano, áquelle egualitario ! Parecialhe agora que os Carvalhosas, os Padilhões, queriam amesquinhar o seu drama por sentir n'elle um grande sopro revolucionario ; e na sua indignação contra os Conservadores, os Bentos Correias, os Meirinhos, decidiu servir as idéas do Nazareno, dramatisal-aé. Desejava conhecel-o, desabafar com elle, dizer mal, odiosamente mal, da canalha que lá em cima, no Universal, lambia os bigodes humidos de café, partindo nozes apathicamente, no enfartamento d'uma nutrição cara. Procurava um meio de lhe fallar, quando Nazareno pediu ao creado a Revolução de Setembro que estava deante d'Arthur, aberta, enxovalhada : apressou-se a offerecer-lh'a, meio erguido, sorrindo ; o republicano agradeceu com um movimento reservado, percorreu o jornal um momento, atirou-o para o lado com desdem e bebeu os ultimos goles de café. Aquelle gesto encantou Arthur : mostrava o desprezo do republicano pela litteratura dos Romas, dos Xavieres, da canalha ! E pediu outro café, demorando-se, esperando um incidente, um olhar, alguma palavra casual que os reunisse. Mas Nazareno, immovel, soprava espaçadamente o fumo do cigarro. Era talvez um amigo de Damião, pensou Arthur. Poderia perguntar-lhe, muito naturalmente, a morada do Damião ou quando voltaria do Algarve. E ia fanar-lhe, animado por dous calices de genebra, quando o republicano pôz tres vintens sobre o marmore da mesa, ergueu-se, deu um geito ao cabello deante do espelho e sahiu, direito e secco. Que ferro !
Sahiu tambem, immensamente desconsolado. Aquella contrariedade fez-lhe pensar, com amargura, nas outras, bem maiores, que lhe estragavam a vida : o seu amor por aquella creatura pequenina e pallida, entrevista, logo perdida ; a reputação de farça dada ao seu drama, tão philosophico ; as soirées de D. Joanna Coutinho, promettidas e sempre adiadas ; os seus enthusiasmos litterarios pelo Roma, pelo Carvalhosa, retribuidos com perfidias, desdens, troças . . . Tudo na sua vida era assim incompleto, esboçado, fragmentario ; não encontrava nada de solido em que se fixar, a que se dedicar : amor, relações, gloria, tudo lhe escapava d'entre as mãos, como a agua que uma creança quer apanhar e lhe foge entre os dedos. E sentia uma solidão, uma frialdade, que a noite ennevoada augmentava. Cahira um nevoeiro, que os altos predios entalavam, condensavam, em que a luz do gaz se amortecia e os vultos tomavam um tom neutro e encolhido ; as fachadas escuras pareciam mais tristes, vagamente fundidas na incerteza baça da kruma.
Arthur caminhava, triste : sentia a nevoa prender-se-lhe ao bigode, ás pestanas, amollecer-lhe a gomma do collarinho, e toda aquella humidade depositar-se-lhe na alma. Cheio de tedio, sentindo-se mais só nas ruas vazias d'onde o nevoeiro afastara a gente, teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o espirito com genebra, rolar-se no deboche. Voltou ao Rocio : entrou n'um pequeno café, onde a Õôr suja da parede, o •soalho negro, o estuque enxovalhado, comiam a pouca luz dos bicos tristes de gaze
Installou-se a um canto com a garrafinha de genebra, melancolico, pensando no botequim da Corcovada, qu.e agora lhe parecia mais confortavel, mais amavel do que tudo quanto encontrara em Lisboa, com a sympathia verbosa do Rabecaz, 0 lume a estalar do outro lado do tabique na lareira da cozinha, e as vozes conhecidas caturrando no bilhar.
Um pigarro pertinaz, n'uma mesa ao lado, fel-0 reparar n'um sujeito que tomava um cabaz : pequeno e grosso, trazia um chale-manta aos hombros e a face redonda, barbeada, molle, tinha uma côr livida de pelle de gallinha ; no seu olhar embaciado havia um langor morbido e grotesco. Sorriu para Arthur, dirigindo-se-lhe com uma vozinha fina :
— Má noite !
— Muito má !
O individuo, immediatamentej arrastou-se pela banqueta de palhinha até junto d'Arthur, com um movimento derreado dos quadris, os olhos revirados n'uma ternura chorosa :
— É servidinho d'um cabaz ?
Arthur recusou. Aquella proximidade do velho embaraçava-o : O individuo tinha um não sei quê de pegajoso na pelle, um roliço de perna effeminado que repellia, e nos seus olhos, de côr indecisa e que não deixavam Arthur, errava uma luxuria turva, equivoca, flaccida.
— Então porque não vai um cabazinho P — disse o homem, mais baixo, chegando-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.