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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Quando entrámos, eu atrevi-me a pedir a S. Exª que escrevesse aquela formosa quadra no álbum de minha esposa, que trouxera comigo, esperando obter, no Porto e em Braga, autógrafos de alguns poetas e prosadores das províncias do Norte.

O Conde tomou o álbum, sorrindo, e retirou-se para o seu aposento. Qual não foi, na manhã seguinte, a minha alegria, quando ele mo restituiu, e li ao abrir a página:

Deus existe! Tudo o prova,

Tanto tu, altivo Sol,

Como tu, raminho humilde

Onde canta o rouxinol!

Estes versos, que eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilusões da mocidade, poderia escrevê-los hoje que a experiência da vida me tem demonstrado que fora de Deus, não há senão ilusão e vaidade...

Conde d'Abrunhos.

Quando voltei a Lisboa e mostrei esta página preciosa à minha Madalena – que surpresa, que arrebatamento! Falámos até tarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastidão do seu génio.

Se eu me detive neste incidente íntimo de uma existência histórica, foi para mostrar que o

Conde não era um homem destituído de sentimento poético e de imaginação idealista. Naquele cérebro todo ocupado de legislação, de reformas, de economia política, de debates parlamentares, tinha havido um momento, na sua mocidade, em que florescera, como uma violeta isolada mas fresca, a flor delicada do sentimentalismo. E quis também provar que a poesia não é inteiramente unia arte subalterna e própria de espíritos efeminados, pois que um homem de tão robusto génio prático não desdenhou um dia, sob a influencia de uma paisagem romântica, servir-se dela para exprimir um alto conceito filosófico. Estou certo de que os poetas contemporâneos, os Hugos épicos, os delicados Tennysons, os Campoamores de humorística melancolia, se orgulhariam deste colega que eu lhes revelo, e que, se apenas uma vez feriu a lira, fê-lo com tal originalidade, vigor e elevação, que esse simples verso isolado sobe mais alto no céu da Arte do que muitas sinfonias majestosas dos Mussets debochados ou dos Baudelaires histéricos:

Deus existe! Tudo o prova,

Tanto tu, altivo Sol,

Como tu, raminho humilde

Onde canta o rouxinol!

Não farei uma narração detalhada da mocidade estudiosa do Conde. Este estudo não é propriamente uma biografia em que deva seguir, ano a ano, a carreira intelectual do seu vasto espírito. São simples apontamentos, quadros destacados de uma nobre carreira, que servirão para que um mais alto engenho (na frase enérgica do Épico) reconstrua, com suficiente relevo, esta soberba figura histórica.

Desde os onze anos, pois, Alípio Abranhos viveu na companhia de sua tia Amália, e a não ser nas férias do segundo ano, em que a doença da mãe o chamou imperiosamente a Penafiel, não tornou a ver seus pais.

Compreender-se-á facilmente que o jovem Alípio, tendo penetrado num meio mais elevado, habituado no Porto, onde estudara parte dos preparatórios, e depois em Coimbra, às convivências eruditas, cultivadas, educadas, se achava extremamente deslocado na companhia pobre e iletrada de seu pai. Quando, durante anos, se tem vivido pela imaginação com os heróis da História e do Romance, quando se tem o ouvido habituado à nobre linguagem dos Cíceros, dos Titos Lívios, quando se tem acostumado o espírito aos interesses da Ciência, da Lógica e da Metafísica –não é fácil suportar-se a conversação de pessoas que só se preocupam com pequenos interesses locais e «mexericos de vila pobre».

Depois das largas salas e dos vastos horizontes da Quinta dos Miguéis, a pequena casa do pai, com o chão atravancado de retalhos de fazenda e o ar abafado do cheiro acre dos estrugidos, a pequena vila escura, onde os vizinhos vão de noite despejar as imundícies, causavam aos costumes fidalgos daquele Noronha uma repulsa instintiva.

Já então revelava o seu gosto pelo luxo, pelas largas habitações tapetadas, pelo serviço harmonioso de lacaios disciplinados. A pobreza e os seus aspectos era-lhe odiosa. Quanta vez, mais tarde, quando ele subia o Chiado pelo meu braço, eu me vi forçado a afastar com dureza os pobres, que à porta do Baltresqui, ou da Casa Havanesa, vinham, sob o pretexto de filhos com fome ou de membros aleijados, reclamar esmola; o Conde, se os via muito perto, «ficava todo o dia enjoado». Todavia a sua caridade é bem conhecida, e o Asilo de S. Cristóvão, a que em parte deveu o seu título, aí está como um atestado glorioso da sua magnanimidade.

Além disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem quais fossem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública devia estar naturalmente toda nas mãos de uma classe, da classe ilustrada, educada, bem nascida. Só deste modo se podem manter os Estados, formar as grandes indústrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e base da ordem social.

(continua...)

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