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#Novelas#Literatura Portuguesa

Singularidades de Uma Rapariga Loura

Por Eça de Queirós (1874)

Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para esses, Macário era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o hábil trabalho. Se tomavam informações, sabiam que ele fora despedido de casa do tio repentinamente, por causa de uma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o guarda livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.

Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como fora sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se encontrava desamparado e solitário – e a vida aparecia-lhe como um descampo. as peças findaram. Macário entrou, pouco, na tradição antiga da miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por empenhar. Depois vendeu. Relógio, anéis, casaca azul, cadeia, paletó de alamares, tudo foi levando pouco a pouco, embrulhado debaixo do xale, uma velha seca e cheia de asma.

No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa; era feliz ali naquela penumbra, toda sentado castamente: não a via de dia porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias assentadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz tênue e esbatida, ele exaltava a sua paixão crescente e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário – era muito singular o temperamento de Luísa . Tinha o caracter louro como o cabelo – se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo «pois sim»; era mais simples, quase indiferente, cheia de transigências.

Amava decerto Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.

Um dia, porém, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o xale traçado à toa, olhando sempre para a porta interior.

— A mamãe percebeu – disse ela.

E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que decerto farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.

— Porque não me vens pedir à mamã?

— Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.

Luísa calou-se, torcendo a ponta do xale, com os olhos baixos.

— Mas ao menos – disse ela – enquanto eu te não fizer sinal da janela, não subas mais, sim ?

Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.

— Chut! – dizia-lhe Luísa. – Não chores alto!...

Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando febrilmente a sua dor, e lutando, sob a nudenta friagem de Janeiro, na sua quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:

— É tudo o que tenho. – E mostrava-lhe três pintos. – Roupa, estou sem ela. Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.

O tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.

— A sua carteira lá está. Fique – e acrescentou com um gesto decisivo – solteiro.

— Tio Francisco, ouça-me!...

— Solteiro, disse eu – continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha numa tira de sola.

— Não posso.

— Então, rua!

Macário saiu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idéia. Estava como uma esponja.

Deixava-se ir.

De repente uma voz disse de dentro de uma loja:

— Eh! psit! olá!

Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.

— Que diacho! Desde manhã que te procuro.

E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e trazialhe um desenlace.

— Queres?

— Tudo.

Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto, e duro, para ir numa comissão difícil e de grande ganho a Cabo Verde.

— Pronto! – Disse Macário. – Pronto! Amanhã.

E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um ultimo encontro, aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu xale, tiritando de frio. Macário chorou. ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:

— Fazes bem. Talvez ganhes.

E ao outro dia Macário partiu.

Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num beliche abafado, os duros sóis das colônias, a brutalidade tirânica dos fazendeiros ricos, o peso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência, as viagens ao interior das terras negras e melancolia das caravanas que o costeiam por violentas noites, durante dias e dias, o rios tranqüilos, donde exala a morte.

Voltou.

(continua...)

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