Por Eça de Queirós (1870)
Aquele quarto pesado de estofos, o cadáver estendido com re flexos lívidos na face, osvultos mascarados, o sossego lúgubre do lugar, as luzes claras, tudo dava àquele momento um aspecto profundamente sinistro.- Meus senhores — disse então lentamente um dos mascara dos, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem -, compreendem perfeitamente, que se nós tivéssemos morto este homem sabíamos bem que um médico era inútil, e uma testemunha importuna! Des-confiávamos, é claro, que estava sob a acção de um narcótico, mas queríamos adquirir a certeza da morte. Por isso o trouxemos. A respeito do crime, estamos tão ignorantes como ossenhores. Se não entregamos este caso à polida, se cercámos de mistério e de violên cia a sua visita a esta casa, se lhes vendamos os olhos, é porque re ceávamos que as indagações que se pudessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cúmplice, alguém quenós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações... — Essas explicações são absurdas! — gritou F... -Aqui há um crime; este homem estámorto, os senhores, mascarados; esta ca sa parece solitária, nós achamo -nos aqui violentados, e todas es tas circunstâncias têm um mistério tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntária assistência, ser parteneste negócio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquela porta.
Com a violência dos seus gestos, um dos mascarados riu.- Ah! Os senhores escarnecem! — gritou F... E arremessando-se violentamente contra a janela, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre e le, curvaram-no, arrastaram-no até umapoltrona, e deixaram-no cair, ofegante, trémulo de desespero.
Eu tinha ficado sentado e impassível.- Meus senhores — observei -, notem que enquanto o meu amigo protesta pela cólera, eu protesto pelo tédio.E acendi um charuto.
— Mas, com os diabos! tomam-nos por assassinos! — gritou um violentamente. — Não se crê na honra, na palavra de um ho mem! Se vocês não tiram a máscara, tiro-a eu! É necessário que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar porum assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem.
E fez um gesto furioso. Neste movimento, a máscara desaper tou-se, descaindo. Ele voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instintivo,irreflectido, de de sesperação. Os outros cercaram-no, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassível. Um dos mascarados, que não ti nha ainda falado, o que nacarruagem viera defronte de mim, a to do o momento observava o meu amigo com r eceio, com suspeita. Houve um longo silêncio. Os mascarados, a um canto, falavam bai xo. Eu, no entanto, examinava a sala.Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete mo le, espesso, bom para correr com os pés nus. O estofo dos móveis era de seda vermelha com uma barra verde,única e transversal, como têm na antiga heráldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janelas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jas pe, e um aroma tépido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de marechala.O homem que estava morto era moço, de perfil simpático e fino, de bigode louro.
Tinha o casaco e colete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de pérolas;a calça era estreita, bem talhada, de uma cor clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.
Pela fisionomia, pela construção, pelo corte e cor do cabelo, aquele homem pareciainglês.
Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidado samente corrido. Pareciame ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, de um aroma que andavano ar uma sensação tépida que dão todos os lugares onde ordinariamente se es tá, se fala e se vive, aquele quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira,umas luvas caídas, alguma destas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviais.
F... tinha-se aproximado de mim.- Conheceste aquele a quem caiu a máscara? — perguntei.
— Não. Conheceste?- Também não. Há um que ainda não falou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.
Um dos mascarados aproximou-se, perguntando:- Quanto tempo pode ficar o corpo assim nesta chaise-longue? Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento co lérico, mas conteve-se. Neste momento omascarado mais alto, que tinha saído, entrara, dizendo para os outros:
— Pronto!... Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pêndula e os passos de F..., que passeavaagitado, como sobrolho duro, torcendo o bigode.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.