Por Eça de Queirós (1875)
- Colerinas, das frutas verdes, rosnou o cônego. Metem-se pelas melancias, depois tarraçadas de água... E suas febritas...
Falaram então das sezões do campo, dos ares de Leiria.
- Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, tenho saúde, tenho!
- Ai, Nosso Senhor lha conserve, que nem sabe o bem que é! exclamou a S. Joaneira. - Contou imediatamente a grande desgraça que tinha em casa, uma irmã meio idiota entrevada havia dez anos! Ia fazer sessenta anos... No Inverno viera-lhe um catarro, e desde então, coitadinha, definhava, definhava...
- Há bocado, ao fim da tarde, teve ela um ataque de tosse! Pensei que se ia embora. Agora descansou mais...
Continuou a falar "daquela tristeza", depois da sua Ameliazinha, das Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo - sentada, com o gato no colo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de pão. O cônego, pesado, cerrava as pálpebras; tudo na sala parecia ir gradualmente adormecendo; a luz do candeeiro esmorecia.
- Pois senhores, disse por fim o cônego mexendo-se, isto são horas!
O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as graças.
- O senhor pároco quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S. Joaneira.
- Não, minha senhora. Não uso. Boas noites!
E desceu devagar, palitando os dentes.
A S. Joaneira alumiava no patamar, com o candeeiro. Mas nos primeiros degraus o pároco parou, e voltando-se, afetuosamente:
- É verdade, minha senhora, amanhã é sexta-feira, é jejum...
- Não, não, acudiu o cônego que se embrulhava na capa de lustrina, bocejando, você amanhã janta comigo. Eu venho por cá, vamos ao chantre, á Sé, e por aí... E olhe que tenho lulas. É um milagre, que isto aqui nunca há peixe.
A S. Joaneira tranqüilizou logo o pároco.
- Ai, é escusado lembrar os jejuns, senhor pároco. Tenho o maior escrúpulo!
- Eu dizia, explicou o pároco, porque infelizmente hoje em dia ninguém cumpre.
- Tem vossa senhoria muita razão, atalhou ela. - Mas eu! credo!... A salvação da minha alma antes de tudo!
A campainha embaixo, então, retiniu fortemente.
- Há-de ser a pequena, disse a S. Joaneira. Abre, Ruça!
A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.
- És tu, Amélia?
Uma voz disse adeusinho! adeusinho! E apareceu, subindo quase a correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bela rapariga, forte, alta, bem-feita, com uma manta branca pela cabeça e na mão um ramo de alecrim.
- Sobe, filha. Aqui está o senhor pároco. Chegou agora à noitinha, sobe!
Amélia tinha parado um pouco embaraçada, olhando para os degraus de cima, onde o pároco ficara, encostado ao corrimão. Respirava fortemente de ter corrido; vinha corada; os seus olhos vivos e negros luziam; e saía dela uma sensação de frescura e de prados atravessados.
O pároco desceu, cingido ao corrimão, para a deixar passar, murmurando boas-noites! com a cabeça baixa. O cônego, que descia atrás, pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Amélia:
- Então isto são horas, sua brejeira?
Ela teve um risinho, encolheu-se.
- Ora vá-se encomendar a Deus, vá! disse batendo-lhe no rosto devagarinho com a sua mão grossa e cabeluda.
Ela subiu a correr, enquanto o cônego, depois de ir buscar o guarda- sol à saleta, saía, dizendo à criada, que erguia o candeeiro sobre a escada:
- Está bem, eu vejo, não apanhes frio, rapariga. Então às oito, Amaro! Esteja a pé! Vai-te, rapariga, adeus! Reza à Senhora da Piedade que te seque essa catarreira.
O pároco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga dum Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o teto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.
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III
Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marquesa de Alegros . Seu pai era criado do marquês; a mãe era criada de quarto; quase uma amiga da senhora marquesa. Amaro conservava ainda um livro, o Menino das Selvas, com bárbaras imagens coloridas que tinha escrito na primeira página branca: À minha muito estimada criada Joana Vieira e verdadeira amiga que sempre tem sido, - Marquesa de Alegros. Possuía também um dagtterreótipo de sua mãe: era uma mulher forte, de sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma cor ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãe, que fora sempre tão sã, sucumbiu, daí a um ano, a uma tísica de laringe. Amaro completara então seis anos. Tinha uma irmã mais velha que desde pequena vivia com a avó em Coimbra, e um tio, merceeiro abastado do bairro da Estrela. Mas a senhora marquesa ganhara amizade a Amaro; conservou-o em sua casa, por uma adoção tácita: e começou, com grandes escrúpulos, a vigiar a sua educação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.