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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Ia escurecendo, ele pensava em voltar: uma grande fadiga tomava-o, de todas aquelas emoções, aquela grande caminhada, no ar mole daquele dia de julho. Entrou um momento num café, bebeu um grande copo de água: e ficou sentado, com a cabeça apoiada à parede, abandonando-se, no prazer daquele curto repouso. O café estava numa penumbra. Um crepúsculo quente envolvia a cidade: todas as janelas abertas respiravam, depois da grande calma do dia: uma ou outra luz ia-se acendendo, e via-se passar gente encalmada, com o chapéu na mão. E ele sentia um prazer, naquela penumbra, e naquele repouso: parecia que a sua dor se dissipava, se dissolvia, naquela inação do corpo, entre as sombras do anoitecer. E vinha-lhe um desejo de ficar ali para sempre, sem jamais se acenderem as luzes, sem que ele jamais tivesse de mover um passo na vida. E a idéia da morte invadiuo, dum modo sereno e insinuante, como o sopro duma carícia. Desejou verdadeiramente morrer. Naquele abatimento em que o seu corpo caíra, todas as amarguras que ainda tinha a passar, as coisas cruéis que tinha a penar, a volta à casa solitária, o encontro com o Machado, os passos a dar para procurar testemunhas – lhe pareciam outros tantos esforços, intoleráveis como penedos, que as suas pobres mãos jamais poderiam erguer: e seria delicioso encostar a cabeça ao muro, e ficar ali, naquele banco, morto, liberto, fora de toda a dor, tendo saído da vida, com a silenciosa tranqüilidade da luz que finda. Um momento pensou no suicídio. E não o aterrava, nem o fazia estremecer a idéia de se matar. Somente o procurar uma arma, o dar um passo, para se atirar ao rio, eram ainda esforços, que lhe repugnavam, naquele desfalecimento de toda a vontade. Quereria morrer ali, sem se mover. Se uma palavra bastasse, uma ordem dada baixo ao seu coração para que parasse e arrefecesse, diria essa palavra, tranqüilamente... E talvez ela chorasse, e lhe sentisse a falta. Mas o outro?

E a esta idéia, do outro a resolução voltara-lhe, uma energia, vaga, ainda bastante para que se erguesse, continuasse o seu caminho... Sim , o outro ficaria bem contente, se ele desaparecesse essa noite. Sentiria um completo alívio. Um ou dois dias mostrar-se-ía pesaroso, talvez se sentisse realmente perturbado. Mas depois continuaria a vida: a firma seria Machado & Cia; ele continuaria a ter amantes, a ir ao teatro, a pôr cera moustache no bigode. Isto não era justo. Fora o outro que causara a ruína duma bela felicidade, era ele que devia morrer. Era o Machado que devia desaparecer; era ele que devia matar. Isso seria mais justo. E as coisas seriam o contrário: a firma continuaria a ser Alves & Cia., e ele poderia mais tarde reconciliar-se com sua mulher, e a vida seguiria, resignada e calma. Era assim que devia ser. Deus, olhando para um, olhando para o outro, medindo os méritos e as culpas de cada um, devia fazer desaparecer o Machado, inspirar-lhe a ele a idéia do suicídio.

E então, destas duas absurdas imaginações que se balançavam no espírito perturbado – o seu suicídio, o suicídio do outro - , uma idéia surgiu, como faísca viva de entre duas nuvens pesadas, uma idéia nítida em todos os seus detalhes, que lhe pareceu justa, realizável, a mais conveniente, a única digna...

Mas nesse momento, alguma coisa de familiar, nas casas junto das quais caminhava, fez-lhe sentir que estava junto da sua porta. Parou, todo tomado pela idéia de Ludovina, olhou a casa. Com o seu bico de gás defronte, ela punha entre os dois altos prédios, a decência da sua fachada asseada, e pintada de azul, com persianas verdes. No seu andar não havia luz alguma: o porão estava cerrado. Estaria ela ainda lá? Teria o pai vindo buscá-la? E uma angústia terrível fazia-lhe bater o coração. Um momento desejou que ela lá estivesse, pensou em perdoar, tanto aquela casa vazia o aterrava. Mas depois sentiu, que diante dela daí por diante, seria frio, constrangido; não, melhor que nunca mais se vissem. Então uma curiosidade levou-o à casa do sogro, ao fim da rua. Aí era um alto prédio, desleixado, sujo. No terceiro andar do sogro, as janelas abertas respiravam a frescura da noite, e também não havia luz. Nenhuma daquelas fachadas lhe respondia, o tirava de inquietação.

Então voltou à casa, empurrou o portão. A escada tapetada dormia na luz quente do bico de gás: e o som abafado dos seus passos parecia-lhe repercutir-se num lugar deserto e côncavo. Do segundo andar vinha, como vago e religioso, um som de piano, uma coisa do Fausto. A gente de cima era feliz, tocava piano.

A cozinheira veio abrir – e o quer que fosse no seu modo revelou logo ao Godofredo que Ludovina partira.

Na sala de jantar, sobre o oleado da mesa ardia uma vela. Ele tomou-a, entrou no quarto de dormir – viu logo duas malas fechadas e um baú.

(continua...)

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