Por Camilo Castelo Branco (1889)
— “Não te iludas, Carlos” — replicou Henriqueta num tom de seriedade, semelhante ao de uma mãe que aconselha seu filho. “O amor não é isso que pica a tua curiosidade. As mulheres são fáceis de transigir de boa fé com a mentira, e, pobres mulheres!… Sucumbem muitas vezes à eloquência artificiosa de um conquistador. Os homens, fartos de estudarem as paixões na sua origem, e enfadados das rápidas ilusões que eles choram todos os dias, estão prontos sempre a declararem-se afetados de cólera-paixão, e nunca apresentam carta limpa de cépticos. De maneira que o sexo frágil das quimeras sois vós, criancinhas de toda a vida, que brincais aos trinta anos com a mulher como aos seis brincáveis com os cavalinhos de pau, e os fradinhos de sabugo ! Olha, Carlos, eu não sou ingrata… Vou-me despedir de ti, mas hei-de conversar contigo ainda. Não instes ; abandonate à minha generosidade, e verás que alguma coisa lucraste em me encontrar e em me não conhecer. Adeus.
Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos numa espécie de idiotismo, quando a viu desaparecer à saída do teatro. O seu primeiro pensamento foi segui-la ; mas a prudência lembrou-lhe que era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até roubar alguma revelação àquela Sofia da primeira ordem ou à Laura da segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quais eles poderiam ser. Laura e Sofia, para dissiparem completamente a esperança ansiosa de Carlos, tinham-se retirado. Era necessário esperar, era necessário confiar naquela mulher extraordinária, cujas promessas o alvoroçado poeta traduzia em mil versões.
Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e escreveu as reminiscências vivas da cena, quase fabulosa, que lhe transtornava o plano de vida.
Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de poesia, e tão fantástico de conjecturas ! Carlos adorava seriamente aquela mulher ! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei eu : mas que o amor é assim, vou eu jurá-lo, e espero que os meus amigos me não deixem mentir.
Imaginem, portanto, a inquietação daquele grande espiritualista, quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais ligeiro indício lhe viesse confirmar a existência de Henriqueta ! Não direi que o desesperado amante apelou para o supremo tribunal das paixões impossíveis. O suicídio não lhe passou nunca pela imaginação ; e muito sinto que esta verdade diminua as simpatias que o meu herói poderia granjear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia sombrio, isolava-se contra os seus hábitos socialmente galhofeiros, abominava as impertinências de sua mãe que o consolava com anedotas trágicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, enfim, sofrera a ponta tal que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias, a fatídica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança.
Diga-se, porém, em honra e louvor da astúcia humana : Carlos, resolvido a partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do Nacional, dissesse, por exemplo, o seguinte :
“O Sr. Carlos de Almeida vai, no próximo paquete, para Inglaterra. S. Sa tenciona observar de perto a civilização das primeiras capitais da Europa. O Sr. Carlos de Almeida é uma inteligência, que, enriquecida pela instrução prática da sua visita aos focos da civilização, há-de voltar à sua pátria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os ramos das ciências humanas. Fazemos votos por que
S. Sra se recolha em breve ao seio dos seus numerosos amigos.”
Esta local bem podia ser que chegasse às mãos de Henriqueta. Henriqueta bem podia ser que conjeturasse o imperioso motivo que obrigava o infeliz a buscar distrações longe da pátria, onde a sua paixão era invencível. E, depois, nada mais fácil que uma carta, uma palavra, um raio de esperança, que lhe transtornasse os seus planos.
Era esta a infalível tenção de Carlos, quando ao décimo quarto dia lhe foi entregue a seguinte carta :
CAPÍTULO V
“Carlos.
Sem ofender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó moral, não é assim ?”
Passaram-se catorze dias, depois que tiveste o mau encontro de uma mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Vítima da tua delicadeza, levaste o sacrifício a ponto de te mostrares interessado na sorte dessa célebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu, generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ela será um rasgo de artista, e não um desejo espontâneo.
Queres saber porque tenho demorado catorze dias este grande sacrifício que vou fazer ? É porque ainda hoje me levanto de uma febre incessante, que me insultou naquele camarote da segunda ordem, e que, neste momento, parece declinar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.