Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Uma praga rogada nas escadarias da forca

Por Camilo Castelo Branco (1883)

Neste sinedrim há uma moral, estragada se o quiserem, mas os evangelistas, que a propagam, são Catões, contanto que os não obrigue a inquietar a sadia tranqüilidade dos intestinos. Aqui, não se sacrifica um dedo a uma pisadela porque não vale a pena.

É necessário escrever, visto que há leitores.

Eu, e os meus correligionários, se até hoje não temos irradiado sôbre a humanidade ondas de luz, é porque a humanidade precisava ser, muito, a concha em que, por aqui se escondiam muitos moluscos morais, que vão saindo agora a espanejar-se ao sol.

Não quero dizer que os moluscos passassem a articulados. Pode muito bem ser que o leitor, ou leitora sejam ainda legítimos moluscos; mas a exceção deplorável não claudica a generalidade. E, portanto:

Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia não deve estar muito tempo debaixo do alqueire, nem os talentos (dinheiro) soterrados vencem juros; e tendo nós, outrossim, em muito afã e desvêlo desafrontar a literatura pátria de injúrias com que estrangeiros e nacionais a desconceituam, desairando-a como pobre de romances, pela sua incapacidade inventiva - o que não só é malícia, mas até aleivosia: resolvemos escrever romances em que figurassem muitas pessoas nossas conhecidas, e outras, que viremos a conhecer no decurso desta meritória tarefa.

Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apóstolos desta idéia lúcida, coube o quinhão de trabalho, que a posteridade me devolverá em gabos e aplausos, e o futuro Plutarco dos homens ilustres desta freguesia de Cedofeita, em que tenho a honra de morar, não deixará de consignar fatos gloriosos.

Disse.

FIM

12345678
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →