Por Eça de Queirós (1887)
Findara a ceia pascal. O esclarecido historiador, que limpava o suor da controvérsia, olhou logo vivamente o relógio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio de Ofel... O doutor da lei conduziu-nos à varanda, alumiada palidamente por lâmpadas de mica, mostrou-nos a íngreme escada de ébano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliézer num aposento cerrado por cortinas de Mesopotâmia - de onde saiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lira.
Que doce ar no terraço! E que alegre essa noite de Páscoa em Jerusalém! No céu mudo e fechado como um palácio onde há luto, nenhum astro brilhava; mas o burgo de Davi e a colina de Acra, com as suas iluminações rituais, pareciam salpicadas de ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em óleo lançavam uma chama ondeante e vermelha. Aqui e além, nalguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um colar de jóias no pescoço de uma negra. O ar estava docemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor, e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, víamos esvoaçar, claras e curtas, as túnicas de gregos dançando a calabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hípica, a Mariana, a Farsala, se conservavam escuras; e o mugido das suas buzinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.
Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite pascal. Havia luzes em Siloé. Nos acampamentos, sobre o Monte .das Oliveiras, ardiam fogos claros; e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.
Só uma colina, além do Garebe, permanecera em treva. Nessa hora, por baixo dela, numa ravina entre rochas, alvejavam dous corpos despedaçados, onde os bicos dos abutres, com um ruído seco de ferros entrechocados, faziam a sua ceia pascal. Ao menos outro corpo, precioso invólucro de um espírito perfeito, jazia resguardado num túmulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canela e de nardo. Assim o tinham deixado nessa noite, a mais santa de Israel, aqueles que o amavam - e que desde então, para todo o sempre, mais entranhadamente o amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima; e agora entre as casas de Jerusalém, cheias de luzes e cheias de cantos - alguma havia, escura e fechada, onde corriam lágrimas sem consolação. Aí o lar esfriara, apagado; a lâmpada triste esmorecia sobre o alqueire; na bilha não havia água, porque ninguém fora à fonte; e sentadas na esteira, com os cabelos caídos, aquelas que o tinham seguido de Galiléia falavam dele, das primeiras esperanças, das parábolas contadas por entre os trigais, dos templos suaves à beira do lago...
Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalém quando no terraço surgiu, sem rumor, uma forma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canela e de nardo. Pareceu-me que dela irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lajes - e o meu coração tremeu. Mas dentre os pálidos panos uma bênção saiu, grave e familiar:
- Que a paz seja convosco.
- Ah! que alívio! Era Gade.
- Que a paz seja contigo!
O essênio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, imóvel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:
- A lua vai nascer... Todas as cousas esperadas se estão cumprindo... Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardá-lo até ao oásis de Engada?
Ergui-me, atirando os braços ao ar, num terror!... Acompanhar o Rabi! Ele não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, numa horta do Garebe?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engada. Agarrei ansiosamente o ombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e à sua autoridade...
O meu douto amigo parecia enleado numa pesada incerteza:
- Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além disso não temos armas!
- Vinde comigo! - acudiu Gade, ardentemente. - Passaremos por casa de alguém que nos dirá as cousas que convém saber, e que vos dará armas!...
Ainda trêmulo, sem me desamparar do sapiente historiador, ousei balbuciar:
- E Jesus?... Onde está?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.