Por Eça de Queirós (1901)
E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de Dr. Agudo: - “Espero que ao menos, cá pôr Guiães, não se erga de novo a forca!...” E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotônio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas duma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, pôr Deus! O bom D. Teotônio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista – e, na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo duma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio duma influência rica, nova, nas Eleições próximas, e a nascente, e a nascente irritação contra as velhas idéias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o Dr.Agudo.
-Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo?
Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha:
-Até corre, como certo, que o Príncipe d. Miguel está com ele em Tormes!
E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alípio – tão agudo! – confirmou:
-É o que corre... disfarçado em criado!
Em criado? Ó! Santo Deus! Era o Batista! Justamente, Ricardo Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho. – Pois não corria, que o filho de D.
Miguel estava em Tormes, escondido?...
-Disfarçado em lacaio – confirmou logo o digno Rebelo.
Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:
-Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o ver. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida... E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...
Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho d. Teotônio, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar.
-Extraordinário! Vejo que aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas idéias...
Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:
-É conforme o que V. Exª chama boas idéias.
E eu agora, furioso com aquela disparada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente:
-Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não jogas... então vamos arranjar duas mesas... O D. Teotônio há de querer cartas.
E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todos se calavam, parecia encolherem-se ante a aparição do meu Príncipe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do Dr. Alípio (um pouco desgarrada do banho das aves tímidas) que lhe dera grande prazer aquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes... ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto admirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara “afrontado”, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:
-Está abafado... Ainda temos trovoada!
E o Dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e uma das éguas da caleche era escabreada, correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, morno e pesado.
-Com efeito, vai cair água.
As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas; e o ar que agitava as cortinas era intermitente, estonteado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge.
Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alípio, puxando o relógio, propôs que levantada aquela remissa, se preparasse a marcha. Justamente o albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando também que vinha aí uma trovoada valente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.