Por Eça de Queirós (1925)
um cavalheiro : acreditava no cavalheirismo dos outros ! por isso que não tinha cheta. Era um mãos-rotas p'ra todos. Já fôra o mesmo com o inventario do papá ; tinha perdido p'ra cima de dous contos de réis. Porquê Boa-fé, cavalheirismo ! Mas ao menos passeava na cidade de cabeça era guida . , .
Aquellas explicações tão intimas, tão amigas, confidenciaes, quasi enterneciam Arthur. Sentia-se reconhecido a Melchior de o vêr soffrer por causa da noticia do Secuto. Veio-lhe por elle um fluxo de amizade transbordante : desejava passar-lhe a mão pela cinta, offerecer-lhe dinheiro ; lembrou-se n'um relance de lhe dar uma boquilha. Não se tinha zangado com elle, ia dizendo : o Rabecaz sempre lhe affirmara que o amigo Melchior era um rapaz ás direitas.
— O Rabecaz é que sabe, o Rabecaz é que sabe ! — exclamava Melchior, apossando-se sofregamente d'aquelle testemunho, erguendo as mãos e os olhos para o céu azul.
Ah, mas não se perdera nada ! O Roma fizera a infamia — mas porque era ? Inveja. Todos consideravam o drama uma maravilha . . .
— Disse-m'o o Saavedra; o Arthur é um grande d.ramaturgo. o unico ! E o Xavier, que é quem entende, estava enthusiasmado! Disse-m'o elle. Você a publicar o livrinho de versos e elle a fazer um
folhetim que o Roma e€toira de raiva . . . Que elle não póde vêr c Roma !
E lamentou então aquellas inimizades entre a Rapaziada. A rapaziada devia ser unida !
Vinham descendo a rua de S. Roque, e MelOhior, querendo aplacar inteiramente Arthur, declarou que para apagar a má impressão da « noticia do jantar b, era necessario fazer outra sobre o drama
— Por exemplo . . . —e parado defronte do Tavares, meditava, com um dedo sobre os labios, o chapéu um pouco para a nuca. — Uma noticia chic, d'estalo . . . Por exemplo . . . Espere você . . ,
Mas de repente, dando com os olhos em dous indivíduos que subiam a rua devagar, perturbou-se, murmurou : Oh, diabo, adeus menino ! — girou sobre os calcanhares e abalou, fugindo a grandes passadas, Arthur, attonito, viu-o cortar, cosido com a esquina, por uma travessa do Bairro Alto.
Os dous sujeitos approximavam-se tranquilla- mente, rindo : um d'elles, grosso, de grande pêra, deu um olhar de lado a Arthur e elevou a voz :
—O covarde do Melchior safou-se á correcção. Não as perde. Aquellas orelhas de burro pertencem-me, hei-de arrancar-lh'as em tempo competente !
E seguiram com um ar de chacota.
N 'essa tarde, M) jan.tar, no Unicersal, Arthur, timidamente, deu a Meirinho os signaes da senhora do vestido de xadrez, perguntando se a conhecia... Morava na rua de S. Bento, um palacete d'um andar só .
Meirinho pareceu humilhado de a não reconhecer. De resto, como estivera tanto tempo ausente de Lisboa . . . havia camadas novas. Não era d'estranhar que não a conhecese.
E recostando-se na cadeira, fazendo girar nos dedos o a,nnel d'armas, como para se comprazer na pureza da sua estirpe, lamentou a formação d'um•a aristocracia nova, abrasileirada, que era quem tinha o dinheiro, as carruagens . . . Citou a phrase do velho marquez d'Axreffana, aquelle original » :
Eu, quando passa um rico landau, volto a cabeça, « porque tenho a certeza que é gente pulha, mas « se vejo um omnibus, tiro o chapéu, porque estou seguro de que vão lá pessoas de nascimento . . . » — É bem dito, hein — Cofiou com satisfação a beha barba clara e inclinando-se ao ouvido d'Arthur : — Porquê Temos conquistazinha
Arthur negou. Era pura curiosidade. Encontrara essa senhora, parecera-lhe bonita . . . Queixou-se então da sua solidão : não tinha relações . . . Ás vezes, á noite, enfastiava-se. E disse, rindo negligentemente, como gracejando :
— Então quando vamos nós á D. Joanna Coutinho ?
Meirinho enguliu á pressa, bebeu um gole de vinho e pousando o copo :
— Ah, não me tenho esquecido. Eu até faço empenho . . . É necessario primeiro, naturalmente, — é a etiqueta — pedir-lhe auctorisag•ao. — mais baixo : — Lá vi, lá vi a noticia do Secado. Lá me fizeram o favor... fazem-me o favor de m'estimar...
Recostou-se com beatitude, cerrando os olhos, como para saborear a sympathia ambiente : — Que a festa esteve bonita, muito bonita Com franqueza — quanto
Arthur córou e disse :
— Vinte e duas libras, salgadinho !
Meirinho reflectiu um momento e com gravidade:
— Muito razoavel, muito razoavel ! E lá vi, lá vi : os calembours, muito bem acceites . . .
E dirigindo-se a um sujeito pesado, de beiços grossos e barba grisalha, que comia com uma gula lenta, um vago suor oleoso na pelle avelhada :
— Oh, Bento Correia, tem aqui um rival !
Ouvindo o nome de Bento Correia, uma celebridade antiga, quasi classica, jornalista, funccionario, Arthur fez-se escarlate.
Bento Correia voltou-se e com uma voz empastada, lenta, a bocca cheia :
— Então pertence á confraria
— Havia d'ouvir. No jantar do Melchior, leu-nos uma comedia . . . Oh, menino, d'estalar ! Calembours deliciosos !
Estava convencido da excellencia dos calembours desde que os vira celebrados n'um jornal.
Arthur, desesperado, envergonhado, acudiu :
— Não, não é só isso É um drama
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.