Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Eu, sempre na ânsia de espiritualizar o banquete, de produzir conversação, ataquei com desabrida alegria a Srª D. Luísa, pôr ela assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre de mim! tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê! ali na Serra era impossível, ainda a peso de ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, com aquele seu modo, tão suave que cada sílaba para correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, lembrou que o Sr.D. Jacinto possuía uma larga faixa do rio douro com privilégio para a pesca do sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis... O Dr. Alípio não se admirava porque essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotônio, não valiam dois mil-réis. Se já não há sáveis!... E a propósito das antigas pescas do Douro se iam formando, em torno da mesa, entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que as senhoras aproveitavam para cochilar, no desabafo daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa até aos frangos guisados. Receoso de que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar) a interpelar Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado no ascensor.

-Isso foi uma das melhores histórias que nos sucederam em Paris! O Jacinto, pôr causa dum peixe muito raro, lhe mandara o que... O Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador...

Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas: - e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol feito com um gancho da Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no poço do elevador... Mas não se produziu um único riso, e a atenção mesmo era dada com esforço, pôr cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes magníficos de príncipes e princesas, misturados a coisas picarescas... Nenhum dos meus convidados compreendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado num poço negro... Perante o gancho da Princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais regelada pela exclamação inocente da tia Vicência: -Ó! filho, que coisas!

Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora – todos, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas conversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos murmúrios, em torno da mesa, que definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bela mulher do Dr. Alípio na grande questão social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um silêncio – e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão.

-Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.

Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos; e logo, também de pé, atirando para trás a sobrecasaca:

-Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua presença a sua querida pátria! E que pôr cá fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. À tua, meu velho!

Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa oratória, positivamente, não incendiara as imaginações!

A tia Vicência fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peônia. Depois foi o encadeamento de saúdes, com os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o Abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência espalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras – quando d. Teotônio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava:

-Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!

Esvaziou o copo, como em religião, pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam – eu dei o braço à tia Albergada.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7677787980...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →