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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

«Querida: — Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as mi nhas malas fechadas e afiveladas: Tenho o meu passaporte... É verdade! Não te esqueças de tirar o teu. Escrevi aminha mãe. Es crevi a um amigo querido, que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na austera firmeza da tua resolu ção. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um pássaro, ou como uma luva: posso pousá-lo sobre atolda de um paquete, pô-lo numa mesa de jogo em cima de uma carta, colocá-lo na ponta de uma espada, ou fechar-to na mão e dar-to. Mas tu pelas condições da tua vida tens um lugardefinido no mundo, li mitado e circunscrito. Estás presa, por um anel de casamento, a uma ordem de coisas, a um certo número de leis, e és na vida co mo um navio ancorado no mar. Por isso é justo que antes de te se parares violentamente do teu centro legítimo, eu, que tenhoa ex periência das desgraça s, das viagens, e do espectáculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem mais amado ao teu coração, tornar-me-ão mais estimadoao teu carácter. Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrai neste momento de mim, da minha honra e da minha fidelidade. Falo do amor, lei ou mistério ou símbolo, força natural ou invenção literária. Fias-te de mais no amor! Aquele amparo superior, aquele apoiosólido e protector, que todo o espírito procura no mundo, e que uns acham na família, outros na ciência, outros na arte, tu parece quereres encontrá-lo somente na paixão, e não sei se issoé justo, se isso é rea lizável!

(continua...)

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