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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância (onde eu senti as malas de Paris, abertas na véspera) – uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e traspassado, copiosa gravata de seda branca, tufando, e presa pôr uma pérola negra – já todos os convidados estavam na sala -, o D.Teotônio, o Ricardo Veloso, o Dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja – todos de pé, num pelotão cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras – a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo riçado; as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vênus Rústica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Príncipe, desses países do Norte onde os Príncipes são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silêncio, como se o teto de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde – nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala -, os seus apertos de mão, os sorrisos, o vago murmúrio, “da sua honra, do seus apertos de mão, os sorrisos, o vago murmúrio, “da sua honra, do seu prazer”, foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Príncipe, que subira à serra; e as senhoras mais se aconchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei o D.Teotônio, o mais ornamental daqueles cavalheiros.

-O Sr. Teotônio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira. O digno D.Teotônio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:

-V.Exª chegou diretamente de Viena?

-Não! – Jacinto viera diretamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D Teotônio insistiu:

-Mas certamente visita muitas vezes Viena...

Jacinto sorriu surpreendido:

-Viena, pôr que?... Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena.

O fidalgo murmurou um lento ah! e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.

Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alípio:

-O nosso Doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito.

O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicência, que se erguera do sofá., chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa -–inteiriçado e vermelho.

À mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, pôr costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarrão, foi comida num tão largo e pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois de tanto tempo e em minha própria casa:

-Deliciosa, esta sopa!

Jacinto ecoou:

-Divina!!

Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a excessiva admiração de Jacinto, o silêncio, carregado de cerimônia, mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa... e eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, e gritei:

-Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, privado dos pitéus lusitanos...

E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado na ocasião do natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a história, profusamente, exagerando, afirmando que esse arroz continha foie-gras, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a bandeira tricolor, pôr cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessara ninguém. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: - Extraordinário, hem?

D. Teotônio observou, misteriosamente, que o “cozinheiro sabia para quem cozinhava”. E a bela mulher do Dr. Alípio ousou murmurar, corando:

-Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!

(continua...)

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