Por Eça de Queirós (1870)
— Vai para Itália?... Mas, então... Ah! Vai para Itália? Minha pobre amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qual quer parte, ou feliz, ou triste, para a consolar, oupara fazer um trio com o meu violoncelo, sou eu, adesso e sempre. Apertou-me a mão. Não sei porquê, aquelas palavras deram-me uma sensação triste.Quis ir ao Aterro. A tarde caía. A água tinha uma imobilidade luminosa. Do outro lado os montes estavam esbatidos num vapor azulado e suave. Sobre o mar havia nuvens inflamadas, de uma cor fulva, como no fundo de uma glória. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz. Sentia-me vagamente melancólica. O rio, aquelas casas triviais, todos aqueles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até aí quase inexpressivos, apareciam-me, pela últimavez que os via, com uma feição simpática. Tive uma saudade piegas daqueles lugares: quis sorrir, escarnecer; mas a verdade era que aquela paisagem, o pesado hotel Central, o terraço de Braganza-Hotel, a grosseira e escura Rua do Arsenal, todas essas coisas alheias a mim,me despertavam inesperadamente o desejo instintivo de tranquilidade, de família, de situações pacíficas, fazendo destacar no fundo da minha vida, num relevo negro, a aventuraque eu ia intentar; e aparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que se despedem, faziam-me pensar nas coisas irrepará veis, no exílio e na morte!
A minha carruagem subia a passo a Rua do Alecrim. As luzes acendiam-se. O céuestava ainda pálido.
Uma senhora passou, só, a pé, levando uma criança pela mão: era uma mulher nova edistinta; parecia feliz. O pequenino, louro, gordo, ria, palrava naquela linguagem misteriosa e dote, que é o que ficou ainda na voz humana do abc do Céu.
Como seria bom ser assim uma mulher pacífica, com um equi líbrio suave no coração,uma toilette fresca, o amor das coisas jus tas, e um filho pela mão! Se eu fosse assim seria alegre, amável, passearia, daria bombons ao meu pequerrucho, trá-lo-ia vestido de coresleves, com uma flor no cinto; conversaria com ele, e à vol ta, depois do cansaço do meu passeio, amaria a tranquilidade da minha vida. Grandes borboletas brancas voariam em Volta do candeeiro; eu, ajoelhada, procuraria despi-lo, sem o acordar, can tando, baixo, emsegredo, uma melodia dormente de Mozart e no entretanto a pena do pai rangeria, a um canto, sobre o papel. O perfumados paraísos da vida! como eu me afasto de vós!
Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quar to estavam fechadas,afiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande pele, apertada na sua correia.
Tudo estava pronto, devíamos partir na manhã seguinte. As minhas ideias simplesdebandaram.
Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de países extensos e distantes, que se atravessam ao galope da pos ta ou na velocidade de um vagão. Era noite. Não pediluz. O luar entrava no quarto através das árvores do jardim. Sentei-me à ja nela.
A minha situação apareceu-me então com o prestigio de um belo romance. Milimaginações e fantasias cantavam no meu cére bro. Sentia-me à entrada de uma vida de perigos, de êxtases, de glórias. Via-me na tolda de um paquete entre os perigos de um naufrágio: ou numa serra espessa, por um grande luar, numa com panhia de contrabandistasque cantam à Virgem; ou no silêncio de uma caravana escoltada de beduínos, acampando no monte das Oliveiras, defronte de Jerusalém. Percorria a Itália; entraria nas cidades ao galopedos cavalos, ao acender o gás, quando a multidão enche os corsos entre fileiras de altivos palácios da Renascença. Via-me em Nápoles, na baia, por um luar calmo; dormindo sob as vinhas em Ísquia; ou na frescura das grutas do Pausílipo, onde ain da choram asnáiades...Aporta abriu-se de repente, um criado en trou com uma carta. Não vi a letra do envelope, não olhei sequer, mas sentia-a! Veio luz. Era verdade, era de Rytmel! Tive-alongo tempo na mão, incerta, trémula. Pu-la em cima da pedra de uma console, fui olhar-me ao espelho, vi-me pálida. No entanto a car ta atraía-me, parecia-me que luzia sobre o mármore branco. Tomei-a, pesei-a, senti-lhe o aroma, e devagar, cansada, suspi rando, comos braços vergados ao peso dela, fuia lentamente abrindo.
VIII
Transcrevo textualmente essa carta terrível:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.