Por Eça de Queirós (1875)
- A rapariga o que precisa é quem a dirija. Aqui para nós, precisa quem a confesse! Ela confessase ao padre Silvério; mas, sem querer dizer mal, o padre Silvério, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita virtude; mas o que se chama jeito, não tem. Para ele a confissão é a desobriga. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da lei de Deus... Veja a senhora!... Está claro que a rapariga não furta, nem mata, nem deseja a mulher do seu próximo! A confissão assim não lhe aproveita: o que ela precisa é um confessor teso, que lhe diga - para ali! e sem réplica. A rapariga é um espírito fraco; como a maior parte das mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor que a governe com uma vara de ferro, a quem ela obedeça, a quem conte tudo, a quem tenha medo... É como deve ser um confessor.
- O senhor pároco é que lhe servia...
Amaro sorriu modestamente:
- Não digo que não. Havia de aconselhá-la bem; sou amigo da mãe, acho que ela é boa rapariga e digna da graça de Deus. Que eu, sempre que converso com ela, todos os conselhos que posso, em tudo, dou- lhos... Mas a senhora compreende, há coisas em que se não pode estar a falar na sala, com gente à volta... Só se está à vontade no confessionário. E é o que me falta, são as ocasiões de lhe falar só. Mas enfim eu não posso ir dizer-lhe: "a menina agora há-de confessar-se comigo"! Eu nisso sou muito escrupuloso...
- Mas digo-lhe eu, senhor pároco! Ah, digo-lhe eu!...
- Ora isso é que era um grande favor! Era um bem que fazia àquela alma! Porque se a rapariga me entrega a direção da sua alma, então podemos dizer que lhe acabaram as dificuldades, e temo-la no caminho da graça... E quando lhe vai falar, D. Josefa?
D. Josefa, "como julgava pecado adiar", estava decidida a falar-lhe essa mesma noite.
- Não me parece, D. Josefa. Hoje é noite de pêsames... O escrevente naturalmente está lá...
- Credo, senhor pároco! Pois eu e as outras pequenas havemos de passar a noite debaixo das mesmas telhas com o herege?
- Tem de ser. Enfim, o rapaz por ora é considerado da família... Além disso, D. Josefa, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos são pessoas da maior virtude... Mas nós não devemos ter orgulho da nossa virtude... Arriscamo-nos a perder-lhe todos os frutos. E é um ato de humildade, que agrada muito a Deus, o misturar-nos às vezes com os maus; é como quando um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador de enxada... É como se disséssemos: "Eu sou-te superior em virtude, mas comparado com o que devia ser para entrar na glória, quem sabe se não sou tão pecador como tu!..." E esta humilhação da alma é a melhor oferta que podemos fazer a Jesus.
D. Josefa escutava-o, babosa; e numa admiração:
- Ai, senhor pároco, que até dá virtude ouvi-lo!
Amaro curvou-se:
- Deus às vezes, na sua bondade, inspira-me justas palavras... Pois, minha senhora, eu não quero maçar mais. Ficamos entendidos. A senhora fala à pequena amanhã; e se, como é de crer, ela consentir em escutar os meus conselhos, traz-ma à Sé, no sábado, às oito horas. E fale-lhe teso, D. Josefa! - Deixe-a comigo, senhor pároco!... Então não quer provar da minha marmelada?
- Provarei, disse Amaro, tomando um ladrilho em que cravou os dentes com dignidade.
- É dos marmelos da D. Maria. Saiu-me melhor que a das Gansosinhos...
- Pois adeus, D. Josefa... Ah, é verdade, que diz o nosso cônego deste caso do escrevente?
- O mano?...
Neste momento a campainha embaixo repicou com furor.
- Há-de ser ele, disse logo D. Josefa. E vem zangado!
Vinha, com efeito, da fazenda - furioso com o caseiro, o regedor, o governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma porção de cebolinho; e, abafado de cólera, aliviava-se repetindo com gozo o nome do Inimigo.
- Credo, mano, que até lhe fica mal! - exclamou D. Josefa tomada de escrúpulos.
- Ora, mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digo co'os diabos! e repito co'os diabos! Mas eu lá disse ao caseiro, que se sentir gente na fazenda, carregue a espingarda e faça fogo!
- Há uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.
- Há uma falta de respeito por tudo! exclamou o cônego. Um cebolinho que dava saúde só olhar para ele! Pois senhores, lá vai! Isto é o que eu chamo um sacrilégio!... Um desaforado sacrilégio! - acrescentou com convicção; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho dum cônego, parecia-lhe um ato tão negro de impiedade como se tivessem sido furtados os vasos santos da Sé.
- Falta de temor a Deus, falta de religião, observou D. Josefa.
- Qual falta de religião! replicou o cônego exasperado. Falta de cabos de polícia, é o que é! - E voltando-se para Amaro: - Hoje é o enterro da velha, hem? Inda mais essa! Vá, mana, mande-me lá dentro uma volta lavada e os sapatos de fivela!
O padre Amaro então, retomado pela sua preocupação:
- Estávamos cá a falar do caso do João Eduardo: o Comunicado!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.