Por Eça de Queirós (1901)
-A tia Vicência não sabe quem é a princesa de Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, porque ela suspeita da tua religião, como homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao almoço!
A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu camarada, que ela supusera realmente um Príncipe, arrogante, escarpado e difícil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado pedido “para se lembrar dele nas suas orações”, duas largas rosas, mais róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriam as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com tão linda palavra. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo apetite de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele, acumulando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha, jurava nunca Ter provado nada tão sublime. Ela resplandecia:
-Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma destas batatinhas recheadas...
-Com certeza, minha senhora! Até duas! As minhas rações, em mesas destas, tão perfeitas, são sempre as de Gargântua.
-Não cites Rabelais, que a tia Vicência não conhece os autores profanos! – exclamava eu, também radiante. – E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia Vicência, ea as esperanças da vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o papá doente, e o péssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado pau de canela.
Não o esquecera a tia Vicência! Ali tinha o seu pauzinho de canela! – Queria que ele, em Guiães, continuasse os seus hábitos como em Tormes... E aquele pau de canela foi o símbolo de adoção do meu Príncipe como novo sobrinho da tia Vicência.
Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do banquete. Nós fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietário, mostrei ao meu Príncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma árvore, um pé de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empalidecer, de cansaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago – “muito bonito! Bela terra!” é que voltei os passos para casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação de espargos, e o sítio onde existira a ruína dum velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnífica crônica de D. João I pôr Fernão Lopes, a primeira edição do Imperador Clarimundo, uma Henriada, com a assinatura de Voltaire, forais de El-Rei D. Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei à adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas. O meu Príncipe tinha o ar esgazeado e lívido. Cravando nele os olhos inexoráveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei “que iríamos agora ver a tulha”. Mas então, com as mãos nos rins, ele murmurou, humildemente, num murmúrio de criança:
-Não se me dava de me sentar um poucochinho!
Tive então piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse, atrás de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando num abatimento profundo: - “Bela propriedade!”
Consenti generosamente que ele adormecesse – e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. Teotônio, com a parelha ruça. Espreitando da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava à pressa as suas pulseiras ricas de topázios.
-Tia Vicência! chegou o D. Teotônio! Felizmente vem sem a filha...Não se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem penteado, de gravata bem tesa!... Vamos a ver como corre a festa!
XIII
Ai de mim! a festa do meu aniversário não se passou com brilho, nem com alegria!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.