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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Ele, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez: — Mas, minha querida amiga, a verdade é que as ilusões do seu espírito são a nossadesgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalida de do carácter feminino. É-lhes insuportável a serenidade. Na vida pacífica procuram o romance, no romance procuram a dor. É necessárioque esses pequeninos e graciosos crânios tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer então que lhe di ga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão? Que mais quer? Acha-me reservado, diz.E se eu tivesse as violências de Otelo, achava-me decerto ridículo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lho aqui, sentado num sofá, de sobrecasaca, numa casa que tem número para arua, e vou aqui apouco, num coupé, jantar, jogar tal vez o xadrez, vestir — quem sabe? — um robe de chambre! É lamentável tudo isto, bem sei. E é por isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse aqui nos paroxismos de Antony, ou tivesseuma toilette veneziana, ou se isto fosse uma abadia feudal, ou se eu partisse daqui paraconquistar Jerusalém, diga-me — tinha mais confiança?

— Tudo isso não quer dizer nada.- Oh, minha querida amiga... — A sua querida amiga — interrompi — nada mais pede que um coração franco e recto.São tudo, pois, imaginações minhas? Não há nada que nos separe? Pois bem, vou dizer-lhe uma coisa, e juro-lhe que é irremissível, juro que o digo em toda a frieza do meu juízo, sem exaltação e sem paixão, com o discernimento mais livre, o cálculo mais positivo...- Mas, meu Deus! Diga...

— E esta resolução, aceita-a?- Uma resolução... E o que envolve ela? — Envolve a única coisa possível, a única que me fará crer em si, com a mesma fé com que creio em mim. Aceita?- Mas como não hei-de aceitar?...

— Pois bem — comecei eu.E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face numa voz ar dente como um beijo: — Fujamos amanhã. Rytmel empalideceu levemente e retirando devagar as suas mãos de entre a pressãodas minhas:

— E sabe que é uma coisa irreparável?- Sei. Ele sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no entanto, de pé junto dele, com a minha mão pousada sobre o seu ombro, dizia-lhe como num murmúrio de um sonho:- Pensava nisto há um mês. Vamos para Nápoles. Vamos para onde quiser. Adoro-te...

É como uma pessoa que se deixa adorme cer. Adoro-te, e quero viver contigo...Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta dos seus olhos; estavam cerrados de lágrimas.

— Meu Deus! Rytmel, tu choras...

— Não, não, minha querida! Estava pensando em minha mãe, que não torno talvez a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!

E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como selando um pacto eterno.

VII

Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty. — Betty — disse eu fechando a porta do quarto. — Betty, de pressa, quero dizer-te umacoisa. Não me digas que não...

— Santo Deus! Sossegue, descanse, minha querida menina! Jesus, como vem pálida! — Betty, é uma coisa irreparável..., devia ser. Foi pensada a sangue-frio. Vês comoestou tranquila, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução digna. Betty, não me digas que não!...Mas, minha rica senhora...

— Não se podia voltar atrás. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão feliz! — Bem feliz, ao menos?- Doidamente. E se não fosse assim, morria...

— Mas então...- Fugimos amanhã. Ela estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que apa reciam lágrimas, e sufocada, com as mãos juntas:- E eu?

Atirei-me aos seus braços. — Pois havias de ficar, Betty? Tu vens connosco, Betty.E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando rou pas, batendo as palmas e gritando:- Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja!, arranja!

Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre, triunfava: a minha vida aparecia-me, larga, cheia, esplên dida, coberta de luz. Entrei nas modistas, olhei,escolhi, comprei, com impaciências de noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.- Partes? — perguntaram-me.

— Para França. — Com a guerra?- Não há guerra. E, havendo, não é interessante ver matar prussianos?!

À porta do Sassetti, encontrei Carlos Fradique.- Sabe que parto amanhã? — disse-lhe eu. — Sabe que parto hoje? — respondeu-me. — Ia lá, apertar-lhe a mão. — Mas é inesperado isso! Vai para França? Para quê?- Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve ha ver atitudes de mortos muito curiosas.- Mas vai debalde. Não há guerra. É positivo. Por isso eu vou para Itália.

(continua...)

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