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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

ouro, as vossas librés — perguntava desgrenhado. Que almag tendes consolado Que lagrimag enxugado D. Arthur, agora, levantado nas ondulações da rhetorica, tinha emphases de voz, e o seu olhar, os SOUB gestos, dirigiam-se sobretudo ao poeta Roma, como para ganhar a sympathia do versificador, incensando-o com aquella glorificação da rima.

Mas Roma tinha posto o seu enorme pince-nez e na sua posição estendida, fixava os vidros de reflexog sombrios, na ponta romba dos botins. Quando o Poeta invocava Deus, inclinou-se para o Carvalhosa e murmurou :

— Que besta ! Que burro !

O Carvalhosa, que a cada momento apalpava o enfartamento das glandulas, encolheu 08 hombros com uma resignação sombria ; todavia, secretamente, aquelle estylo ás empolas agadava-lhe como orador ; e a Saavedra tambem, que, bamboleando a perna traçada, affectava uma distracção elevada, preoccupagões politicas. Só o Cordeiro admirava francamente, meditando attitudeg d'actor, em con cordancia com a eloquenoia da prosa. Padilhio melia-se na cadeira, indignado, vendo em cada. phrase insultos aos titulares das suas relações; e pó, o tio Antonio, os braços gordos e ourtog ornza. dos, cerrava os olhos, como se a cadencia dog periodos lhe desse a gomnolencia d'um embalQr soporifico de berço.

Quando Arthur, offegante, terminou a scena, sd Melchior e Meirinho tiveram brav08 !

Depois d'uma pausa, Arthur começou a lêr o acto do Baile de Mascaras. Bra longo : passava-se no palacio do Duque, n'um logar indeterminado, na Baixa, com terraços sobre um rio desconhecido de ballada. Pelas rubricas, parecia ser uma festa veneziana da Renascença : uma mascara vestida de trovador cantava uma serenata, dous napolitanos dançavam a tarantella, pagens circulavam com taças de vinho de Syracusa, um bobo roubava com destreza a bolsa aos cavalleiros, e no fundo passava um barco, em que flautas e rebecas alternavam com uma voz de mulher, cantando, na noite, versos de Petrarca.

Xavier, experiente do theatro, comprimia o riso, roxo.

Havia dialogos singulares : Marqueza, dizia um dominó, não sente n'esta festa errar um presentimento de morte » A Marqueza respondia, passando, a arrastar brocados : — O amor é um goivo que floresce n'uma caveira !

Doug fidalgos desciam ó geena :

0 FIDALGO

Como ee portou comtigo o destino, no sarau da Princeza ?

0 FIDALGO

Perdi seiR mil cruzados aos dados !

Quando Arthur leu a apostrophe do Duque, aepois d'atirar a luva ao Poeta : « Quem ousar erguer os olhos para a duqueza de S. Romualdo póde encommendar a mortalha ! » — houve um rumor lento, languido de : muito bem ! muito bonito ! de muito effeito ! — Os litteratos estavam tranquillos, o acto era idiota, o Arthur inoffensivo, e gosavam com attitudes recostadas, faces risonhas, a evidencia d'aquella mediocridade. Excellente drama para ser representado n'uma Assembleia de provincia, por curiosos d'uma phylarmonica. Pobre tolo ! E Roma cofiava a barba com deleite.

Algumas scenas do quarto acto na caga do Poe- ta, na vespera do duello, com uma mãe humilde, creatura sacrificada, fatigaram. Sarrotini torcia-se na cadeira, impaciente do silencio, da immobilidade; o alferes bocejava sem pudor; puxavam-se os relogios ás furtadelas ; havia olhares desesperados para o aparador ; Carvalhosa, com os cotovelos nos joelhos, enterrava a cabeça nas mãos ; e Arthur, sentindo o tedio ambiente descer-lhe sobre o cerebro como um panno gelado, apressou-se a dizer :

— Agora vou lêr o duello I

Houve uma respiração alliviada : com a morte do Poeta, chegava do certo o fim !

Arthur proseguiu com uma voz lugubre :

— Um cemiterio. Cruzes, campas, cyprestes. — Vem rompendo a madrugada. Um coveiro afasta-se com a enxada ao hombro, cantando —E elle mesmo cantou uma melodia singularmente triste, tocante :

Nascem goivos a-a-ah t

E rosas nas sepulturas. Morte eterna, morte eterna, Vida que tão pouco duras I

— Bravo ! — gritou Sarrotini.

A melodia impressionara. Arthur explicou que realmente a ouvira a urn coveiro, no cemiterio d'Oliveira. Extasiaram-se : elle repetiu-a. E aquella toada, d'um vago melancolico, punha alli, na sala, sob o gaz, um relance de cemiterio d'aldeia, n'um cahir de tarde triste.

Animado, Arthur começou o monologo do Poeta, que entrava envolvido n'uma capa e pousava sobre uma campa duas espadas. As physionomias recahiram n'uma fadiga molle, havia uma prostração de fome ; o Xavier que soffria do estomago, não se contivera, e, em bicos dc pés, fôra tirar da mesa passas e amendoas, partilhando-as com Saavedra que se mexia na cadeira, desesperado ; o official de lanceiros então foi buscar uma bucha de pão ; o Mei.

rinho desapparecera. O grito do Poeta, ao ser atravessado pelo florete do Duque, espalhou nos rostos uma alegria feroz.

(continua...)

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