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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Diga-me cá, porque se espera ? Ouvi fallar que tinhamos leitura . . . Que estopada, hein ?

Arthur fez-se escarlate. Mas n'esse momento Melchior bateu as palmas : rostos voltaram-se com curiosidade.

— Meus senhores . . . — começou Melchior, junto da mesa, n'uma attitüde grave.

Mas vozes romperam, chalaceando : o Melchior deita falla ! Ora adeus ! Menos eloquencia e mais sopa ! Não seja tolo, seh Melchior !

Melchior, irritado, bateu fortemente com uma faca na mesa, Roma disse alto :

— Respeito ao grande orador I Todos riram.

— Meus senhores, — recomeçou Melchior — aqui o meu amigo Arthur Corvello, vae-nos lêr o seu drama, isto é, duas ou tres scenas do seu drama !

Houve um silencio concavo, hostil. Meirinho que fallava baixo com G guarda-livros, ergueu a face para soltar um isolado : muito bem ! apoiado !

Tinham arredado dous talheres na mesa, e ao pé d'um castiçal estava o manuscripto aberto. Ar{9

thur sentou-se. Tremia todo. Receava que lhe fal• tasse a voz, que lagrimas nervosas rompessem.

Melchior ia d'um a outro pedindo baixo, por caridade, quo se sentassem, que tivessem paciencia, era um instantinho

— Maldito ! — murmurou Xavier com raiva.

— Canalha I — fez o Roma, dando-lhe um canellão.

Carvalhosa beliscou-o :

— Has-de m'as pagar, ogsassino !

Elle torcia-se, tinha olhares anciosamente supplicantes :

— Oh, filhos, por quem sois ! um momento ! Pelo amor de Deus ! Sejam decentes !

Arthur, livido, gentia a hostilidade, Mas não lêr agora, poderia parecer uma aesfeita . . . Depois contava dominal-og pela eloquencia do drama, Fez um estorço e disse n'ama voz baixa, estrangulada :

— Eu não leio tudo , , .

—Sim — acudiram logo. — Uma ou duas gee• nas, p'ra fazer idéa !

Melchior, por traz da cadeira d'Arthur, revirava olhos imploradores. AB cadeiras enfileiravam-se em semi-oirculo : o tio Antonio, com as mãos nos joelhos muito geparad&, arregalava OB olhos na sua face nedia ; Sarrotini arqueava o busto forte, os braços soberbamente cvuzados sobre o peito ; Car valhoga apalpava a garganta, com olhares desconfiados para a porta, para as janellas ; Roma, com as pernas muito estendidas, os pés cruzados, con• servava a mao sobre a bocca, como para esconder bocejos provaveis ; havia queixos melancolicamente descahidos sobre as gravatas ; os olhares tinham uma resignação molle. E o andando em bicos dc pés, acabava de dispor uma nova densa fileira de garrafas sobre o aparador. Para Arthur, aquelles rostos em linha eram quasi pavo-

rosos.

Tinha ex.plicado, tremulo, que os Amores de Poeta eram a lucta entre o talento e os preconcei tos sociaes.

— Alvaro, um poeta, ama a duqueza de S. Ro mualdo

Padilhão pulou :

— Ora essa ! E então o que ha-de pensar a snr.8 condessa de S. Romualdo, uma senhora respeitabilissima !

Arthur, atarantado, balbuciou :

—É duqueza

— Duqueza ou condessa. um titulo da casa, lum titulo antiquissimo. Sou relação da familia, pes• soas da primeira sociedade . , .

Concordaram, em redor, que era preciso mudar o titulo. Então todos fallaram, n'uma balburdia, que lera a desforra do silencio forçado, lembrando titulos : duqueza de I Duqueza de Pedro-

Negras Qual! Duqueza da Casa-Santa... Emfim decidiu-se que foge simplesmente — a duqueza !

Aquelle interesse pelo titulo animou Arthur. Pro-

seguiu, mais seguro :

—O que lhes vou agora lêr, é quando o Poeta faz, em casa da duqueza, o elogio da poesia • E, emfim, verão . . . É n'uma soirée :

O CONDE S. SALVADOB

Leu os Céus Estrelados marqueza ?

A MARQUEZA D'ALVARENTA (despeitada)

Até acho impertinente gue m'O pergunte, Conde I Uma pessoa do meu nascimento e da minha educação, não toca nem com luvas . . .

O VISCONDE DE FREIXAL (gaguejando)

A ma-arqueza e-em gue-estões d'es-es-trelladog 8ó-ó-ó 0-008 !

Todos riram, Muito bem ! muito bem ! O Meirinho affectava torcer-se. Atiraram-lhe mesmo um chut severo !

— Deixem-me deixem-me saborear dizia suffocado, com as mãog nag ilhargas. — Magnifieo I

Arthur, aquecendo, continuou já com inflexões theatraes :

O DUQUE

A Marqueza tem razão. Platão erctuéa os poetas da sua republica e Platão, a meu vêr, era um homem d'espirito e um estadista. De que servem 08 poetas ?

O POETA (que conversava baixo com a Dugueza, er guendo-se arrebatadamente)

De que servem, gnr. Duque ?

A DUQUEZA (baioo)

.Atvaro, por quem és, não o irrites que nos perdes !

O POETA (sem a escutar)

De que servem ? Semeiam o Ideal !

E o poeta, de certo de pé, com gestos nobres, fazia o elogio da Poesia. Amaldiçoava os Preconcei- tos, as Inscripções, os Fundos Publicos, os Bancos, todo o materialismo economicoa Accusava os fidalgos, seguramente cabisbaixos, de não comprehenderem a alma da Natureza, o que dialogam as aves com as flores e o que diz o vento aos pinheiraes.

De que vos servem os vossos castellos, o vosso

(continua...)

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