Por Eça de Queirós (1878)
Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer. Aquilo era verdade. Por que estava ele em Lisboa? Por ela. Mas se reconhecia agora - que o não amava, ou tão pouco! E depois era vil trair assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para ela. Mas se Basílio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas idéias redemoinhavam, como folhas de outono, violentadas por ventos contraditórios. Desejava estar tranqüila, que a não perseguissem. Para que voltara aquele homem? Jesus! Que havia de fazer? Tinha os seus pensamentos, os seus sentimentos numa dolorosa trapalhada.
E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O calor fora, a poeirada da rua faziam-lhe apetecer mais a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz também! Atirou ao ar uma moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se sem vontade, secada - tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões da reconciliação...
Mas que surpresa! Esperava encontrá-lo humilde e de joelhos; achou-o com a testa franzida e muito áspero.
- Luísa, parece incrível; por que não vieste ontem?
Na véspera, Basílio, quando viu que ela faltava, teve um grande despeito e medo maior; a sua concupiscência receou perder aquele lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalizou-se de ver libertar-se aquela escravazinha dócil. Resolveu portanto, a todo o custo, chamá-la ao rego. Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a atrair, decidiu ser severo para a castigar. E acrescentou:
- É uma criancice ridícula. Por que não vieste?
Aquele modo enraiveceu-a:
- Porque não quis.
Mas emendou logo:
- Não pude.
- Ah! É essa a maneira por que respondes à minha carta, Luísa?
- E tu, é esse o modo com que me recebes?
Olharam-se um momento, detestando-se.
- Bem; queres uma questão? És como as outras.
- Que outras?
E toda escandalizada:
- Ah! É demais! Adeus!
Ia sair.
- Vais-te, Luísa?
- Vou. É melhor acabarmos por uma vez...
Ele segurou o fecho da porta rapidamente.
- Falas sério, Luísa?
- Decerto. Estou farta!
- Bem. Adeus.
Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. Ela deu um passo, e Basílio com a voz um pouco trêmula:
- Então, é para sempre? Nunca mais?
Luísa parou, branca. Aquela triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma comoção. Rompeu a chorar.
As lágrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão frágil, tão desamparada!...
Basílio caiu-lhe aos pés; tinha também os olhos úmidos.
- Se tu me deixares, morro!
Os seus lábios uniram-se num beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deulhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.
Ela prendia-o nos braços nus, pálida como cera, balbuciava:
- Não me deixes nunca, não?
- Juro-to! Nunca, meu amor!
Mas fazia-se tarde; era necessário ir-se! E a mesma idéia decerto acudiu-lhes - porque se olharam avidamente, e Basílio murmurou:
- Se pudesses aqui passar a noite!
Ela disse aterrada, quase suplicante:
- Oh! Não me tentes, não me tentes...
Basílio suspirou, disse:
- Não, é uma tolice. Vai.
Luísa começou a arranjar-se, à pressa. E de repente, parando, com um sorriso:
- Sabes tu uma coisa?
- O quê, meu amor?
- Estou a cair com fome! Não almocei nada, estou a cair!
Ele ficou desolado:
- Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
- Que horas são, filho?
Basílio viu o relógio; disse quase envergonhado:
- Sete!
- Ai, Santo Deus!
Punha o chapéu, o véu, atrapalhadamente:
- Que tarde! Jesus! Que tarde!
- E amanhã, quando?
- À uma.
- Com certeza?
- Com certeza.
- Ao outro dia foi muito pontual. Basílio veio esperá-la ao fundo da escada; e apenas entraramno quarto, devorando-a de beijos:
- Que me fizeste tu? Desde ontem que estou doido!
Mas Luísa estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.
- Que é aquilo?
Ele sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destapando o cesto, com uma cortesia grave:
- Provisões, festins, bacanais! Não dirás depois que tens fome!
Era um lanche. Havia sanduíches, um pâté de foie gras, fruta, uma garrafa de champanhe, e, envolto em flanela, gelo.
- É brilhante! - disse ela, com um sorriso quente, rubra de prazer.
- Foi o que se pode arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!
Pôs o cesto no chão, e vindo para ela com os braços abertos:
- E tu pensaste em mim, meu amor? Os olhos dela responderam - e a pressão apaixonada dosseus braços. As três horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquilo parecia a Luísa muito estróina, adorável - e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champanhe. Sentia uma felicidade que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoráveis os seus braços nus movendo-se por cima dos pratos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.