Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

O primeiro que appareceu foi o folhetinista Xavier : debaixo d'um nariz grosso, o bigode farto, muito horizontal, tinha a espessura d'um rolo de crepe ; de face escavada e as fontes reintrantes, usava lunetas defumadas, com o cordão passado atraz da orelha ; debaixo do fato preto, adivinhava-se um esqueleto quasi sem carne.

Melchior apresentou-lhe logo Arthur :

— Tem um drama, cá o amigo, e vai-nos fazer logo uma leiturazinha — Interrompeu-se, correu a apertar a mão do actor Cordeiro, um moço galante, timido, que, com a cabeça um pouco de lado, torcia constantemente, n'um gesto machinal, um pequeno buço castanho.

Drama historico ? — perguntou Xavier a Arthur.

Moderno

Em que genero

Mas o Padilhão que entrara solemnemente, veio bater no hombro d'Arthur paternalmente ; apre sentava-se de casaca, com a pequena cruz de ca valleiro de Christo.

O Xavier reparotl e fazendo saltar com o dedo a cruzinha :

— Graçazinha regia, hein ?

Padilhão escorregou pelo canto do olho um olhar satisfeito á condecoração, e grave :

—- Foi o Ministro do Reino, á força : que a havia de ter, que a havia de ter ! Vá lá ! Viu-me fazer imitações em casa de D. Joanna Coutinho, gostou... Acceitei !

— E como vai D. Joanna, essa sylphide ? — perguntou Xavier.

Padilhão pareceu chocado d'aquella expressão familiar, fez-se serio, disse :

— Um pouco encatarrhoada ! — girou sobre os calcanhares e afastou-se limpando os beiços a um lenço de monogramma bordado.

— Grande typo ! — disse Xavier a Arthur — Ahi temos o illustre Sarretini.

O cantor entrava com as bandas da sobrecasaca deitadas para traz, o arco do peito saliente no collete decotado, uma vermelhidão prospera na pelle, o olho chammejante. Deu um abraço a Xavier, que lhe sacudiu todo o esqueleto, beijou, com escandalo de todos, a face bonita de Cordeiro, que córou como uma virgem, e com gestos de palco e voz dominante, ia dizendo para os lados : dilecto amico ! Carissimo hijo mio !

Levantou ao ar Meirinho, que gritou, perneando ; riram, fallaram de forças,. Sarrotini foi logo erguer pelo pé uma cadeira e conservou-a no ar, com o braço retesado, a face purpurea. Depois, pediu vermouth e exclamou : Portucallo e Italia siamo fratelli ! Achavam-no um maganão delicioso.

No emtanto, Arthur reparara n 'um individuo barrigudo e calvo, que de mãos atraz das costas e passinhos subtis, ia rodando em volta da mesa, das ostras, das garrafas, com um rosto farejante e desconfiado. Ia perguntar a Melchior quem era — quando Saavedra entrou,

Rodearam-no logo. E elle% com a cabeça erecta, consciente qua importancia, o olhar protector, dizia chalaceando :

— Então, que lhes parece o meu Melchior Que chic que deita ! hein ?

CAPIT&TS

Sarrotini passava-lhe a mão pelo hombro, apossava-se d'elle, dava-lhe nomes carinhosos : gran periodista ! dilecto amico ! Mas Cordeiro arrebatou-lh'o, levou-o para ao pé da janella, cochicharam :

— Você percebe, Saavedra, a rapariguita tem talento, é necessario animal-a. Vai ter um papel na Princeza Jus7ca

Saavedra prometteu, com bondade, a protecção do Secuto.

—É você quem lavra aquillo — perguntou.

Cordeiro negou languidamente.

— Seu sultão disse Saavedra rindo. com movimento desdenhoso dos beiços : — É um zinho d'ossos : eu gosto de carne mais almofadada.

No emtanto, junto do aparador, Meirinho e Yelchior pareciam questionar vivamente. Arthur, inquieto, approximou-se.

— Estão-se a estragar, estão-se a ! —-dizia Meirinho, excitado. E voltando-se thur : — Com o calor, com as luzes, estr É necessario começar já.

Melchior insistia, mas frouxamente : emfim, primeiro a leitura do drama. Senão depois . . .

— Depois, depois ! — exclamou abafadamente o Meirinho — O drama póde eeperar. As ostras é que não podem esperar, amollecem . . .

Arthur ficou aterrado, pa]lido : tanta despeza e não fazer a leitura ! Olhou para o jornalista tão

supp-licantenente, que Melchior compadecido teimou prin±o o drama, as ostras que as leve o

NÃeirinho recuou, olhou-os ambos com rancor. E um grande gesto :

.Bem I. É um perdido ! Eu não me resPonsahiliso por mais COüsa nenhuma !

ia sahir, furioso, quando esbarrou com o Roma. O poeta entrava devagar, com o seu ar de vago desp eito tão singular n'um homem nedio, descalçan&O as luvas pretas. Pareceu não reparar em Arthur• Deu um olhar de lado á mesa, e ageitando um saminho de alecrim que trazia na lapella, approximou-se de Xavier, mxando as calças para cima com o seu gesto torpe.

Ecoo el eggrcgio oratore . — fez Sarrotini com uma voz possante que dominou o rumor.

pra, o Carvalhosa. Vinha abafado n'um cachenez roxo e Ijaxecia descontente. Disse logo a Melchior que tinha vindo por grande favor, pois que uma constipação e precisava eautelas. E palpa V a a garganta, olhando em volta, desconfiado, procnrando Ilma corrente d'ar, uma fresta traiçoeira.

Isto é orgão serio, — disse para Sarrotini _ a differença que para os senhores é questão de 0tas e para nós, d'idéas ,

E depois de soltar a sua phrase, veio para Arthur e stendendo-lhe negligentemente a mão :

— Como vai o amigo

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6970717273...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →