Por Eça de Queirós (1901)
E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha úmida reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e pôr cima, pendurado dum prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:
-Está bem, está bem...
E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto Silvério decerto revelava à rapariga, a presença augusta do “fidalgo”, porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
-Ai! Nosso Senhor lhe dê muita boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos trêmulos a torturar o bigode, e murmurava:
-É horrível, Zé Fernandes, é horrível!
Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:
-Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!
Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago: “Está bem, está bem...” Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:
-Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!...
-E nós vamos almoçar – lembrei eu olhando o relógio. – O dia ainda vai estar lindo.
Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso, e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do céu.
Então recolhemos lentamente para casa, pôr uma vereda íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, reluzia consolada.
Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:
-Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na Quinta.
O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago eh! eh! de obediência e dúvida.
-Antes de tudo – continuava Jacinto – mande já hoje chamar esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios que os vão buscar logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, e em cada dia; até que ela melhore... Escute! E quero, Silvério, que lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze milréis... Bastará?
O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil-réis! Uns tostões bastavam.... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos pechinchavam...
-Mas é que todos hão de Ter – disse Jacinto simplesmente.
-V. Exª manda! – murmurou o Silvério.
Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:
-Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!
Caminhamos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idéias benfazejas, cautelosamente, no seu indomável medo do Silvério:
-E as casas também... Aquela casa é um covil!... Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são pocilgas iguais... era necessário uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da Quinta...
-A todos?... – O Silvério gaguejava – emudeceu.
E Jacinto balbuciava aterrado:
-A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?
Silvério atirou um gesto enorme:
-São vinte e coisas... vinte e três! Se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete...
Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo a vastidão do número. Mas desejou saber pôr quanto ficaria cada casa!... Ó! uma casa simples, mas limpa, confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Exª saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:
-Duzentos mil-réis, Exmo Senhor! E é para mais que não para menos!
Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.