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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma criança pequena, aflita, com medo que tenão chegue o prato de arroz-doce. Sossega, menino, apanhas o teu arroz-doce!... Mas, com efeito, encontrei o José Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com o Pita. A Verdade tem sido furiosamente ministerial... E esse Pita, agora quando souber que lhe tapei Vila-Clara, arde em furor contra mim. O que me é soberanamente indiferente; colerazinhas ou piadinhas do Pita não me tiram o apetite... Mas o José Ernesto admira o Pita, necessita do Pita, está empenhado em pagar ao Pita com um Círculo... Ainda no último dia me disse na Secretaria, até lhe achei graça: - "Eu vejo que os deputados por Vila-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu Ramires morrerem breve, então entra o Pita".

Gonçalo recuou a cadeira:

- Se eu morrer!... Que animal!

- Oh, se morreres para o Círculo! - atalhou o Cavaleiro rindo. - Por exemplo, se nos zangássemos, se amanhã entre nós surgisse uma dissidência... Enfim, o impossível!

O Mateus entrava com a terrina do caldo de galinha, que rescendia.

- A ele! - exclamou André. - E não se fale mais de Círculos, nem de Pitas, nem de Júlios, nem da negregada Política!... Conta antes o enredo da tua Novela... Histórica, hem?... Meia-idade? D. João V?... Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma época deliciosa, Portugal sob os Filipes...

Os três quartos, depois das seis, batiam no relógio sempre adiantado da igreja de S. Cristóvão, em Oliveira, quando André Cavaleiro e Gonçalo, descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro da Louça (agora largo do Conselheiro Costa Barroso).

Todos os domingos, tocando num coreto que o Conselheiro, quando presidente da Câmara, mandara construir sobre o velho Pelourinho demolido, a charanga do Regimento ou a filarmônica Lealdade tornavam aquele largo o centro mais sociável da quieta e caseira cidade. Nessa tarde porém, como começara no Convento de Santa Brígida o bazar patrocinado pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas cadeiras do Asilo espalhadas por sob as acácias. As Lousadas faltavam no seu pouso reservado, superiormente escolhido para espiarem todo o Ferreiro, as casas que o cerram do lado de S. Cristóvão e do lado das Trinas, a rua Velha e a rua das Velas, a barraca da limonada, e até outro retiro pudicamente disfarçado por uma caniçada de heras. E o único rancho conhecido, D. Maria Mendonça, a Baronesa das Marges, as duas Alboins, conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade de ferro que o limita sobre a antiga muralha - donde se dominam campos, a cerca do Seminário Novo, todo o pinhal da Estevinha e as voltas lustrosas da ribeira de Crede.

Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a aléia do largo denominada o "Picadeiro", gozando a Marcha do Profeta, o espanto reviveu (apesar de todos conhecerem a reconciliação famosa do Governo Civil) quando os dois amigos apareceram, ambos de chapéus de palha, ambos de polainas altas, ao passo solene das duas éguas - a de Gonçalo airosa e baia de cauda curta à inglesa, a do Cavaleiro pesada e preta, de pescoço arqueado, a cauda farta rojando as lajes. Melo Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam numa fila pasmada, a que se juntou um dos Vila-Velhas, depois o morgado Pestana, depois o gordo major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre "aquela amigação..." O Tabelião Guedes, o Guedes popa, derrubou a cadeira no alvoroço com que se ergueu, indignado mas respeitoso, descobrindo a calva numa cortesia imensa em que o chapéu branco lhe tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que saía do retiro encaniçado de hera e se abotoava, embasbacou, com os óculos na ponta do nariz alçado, os dedos esquecidos nos botões das calças.

No entanto os dois amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas que o palacete de D. Arminda Vilegas domina, com o pesado brasão dos Vilegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas por cortinas de damasco amarelo. Na varanda de esquina, o Barrolo e José Mendonça fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao sentir as patas lentas das éguas, ao avistar tão inesperadamente o cunhado - o bom Barrolo quase se despenhou da varanda:

-Ó Gonçalo! Ó Gonçalo!... Vais lá para casa?

E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:

- Nós já vamos! Jantamos cá esta tarde... A Gracinha está lá em cima, com a tia Arminda. Vamos já também! É um momento!

O Cavaleiro acenou risonhamente ao capitão Mendonça. Já Barrolo mergulhara com entusiasmo para dentro dos damascos amarelos. E os dois amigos, deixando pelo Terreiro aquele sulco de espanto, penetraram na rua das Velas onde um polícia se perfilou com a mão no bonnet - o que foi agradável ao Fidalgo da Torre.

(continua...)

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