Por Eça de Queirós (1901)
E, então, surdiu pôr trás da parede do alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma careta miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silvério imediatamente o conheceu.
-Como vai a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar aí. Eu ouço bem. Como vai a tua mãe?
Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:
-Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
Foi o Silvério que informou respeitosamente:
-É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo deste... Filharada não lhe falta.
-Mas este pequeno também parece doente! – exclamou Jacinto. – Coitado, tão amarelo!... Tu também estás doente?
O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:
-Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e enfezadito porque... Que quer V.Exª? Mal comido!
muita miséria....
Quando há o bocadito de pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
-Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome?
Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Príncipe:
-Homem! Está claro que há fome! Tu imaginavas talvez que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria... Em toda a parte há pobres, até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
O meu Príncipe teve um gesto de aflita impaciência:
-Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que são meus, há gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra:
-Pois está bem de ver, meu senhor, que há para aí caseiros que são muito pobres. Quase todos... É uma miséria, que se não fosse algum socorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Exª de ver as casitas em que eles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...
-Vamos vê-la! – atulhou Jacinto com uma decisão exaltada.
E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caia, mais leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele, com ansiedade, como para o salvar dum precipício.
-Não! V. Exª lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha...
Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:
-Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu chapéu de chuva, e avante!
Então o Procurador vergou os ombros, e, como sua Exª mandava, abriu com estrondo o imenso pára-águas, abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola suntuosa que o bom Deus mandava àquele pobre casal pôr um remoto senhor das Cidades! Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.
Como todos os casebres da serra, o Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosa, para uma Écloga, aquela morada da Fonte, da doença e da Tristeza.
Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a porta, chamando:
-Eh! tia Maria... Olá, rapariga!
E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.
-Então como vai tua mãe? Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores...
Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
-Ora, coitada! como há de ir? Malzinha... malzinha.
E dentro, num gemido que subia como do chão, de entre abafos, amodorrado e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:
-Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga:
-Não há de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão friagem!
E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:
-Já V. Exª vê... Muita miséria! Até lhe chove lá dentro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.