Por Eça de Queirós (1925)
Mas meu pai, com o seu bom-senso, minha tia, com as suas promessas, venceram essa resistência, igual à da leoa a que impudente caçador quer arrebatar os filhos, e numa manhã de Agosto – como recordo o opulento Sol nascente, cravando o mundo das suas flechas de ouro! – parti com minha tia Amália para a pitoresca Quinta dos Miguéis, onde me decorreram a infância e a puberdade, primeiro nos infantis brinquedos, mais tarde em úteis estudos. E nunca revisitei a Quinta dos Miguéis, sem uma profunda saudade desses anos descuidosos, e sem ir ao pequeno cemitério, – onde minha tia Amália repousa no seu bem tratado jazigo, cercada de floridos goivos – ajoelhar e murmurar uma reconhecida prece, no silêncio da tarde, pela alma simples que me abriu a sua bolsa e me habilitou a cursar as aulas da nossa sábia Universidade.»
Página admirável! – em que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante bondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, já ilustre, já titular, já ministro, seguir o caminho estreito do cemitério, por alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho sobre a relva, descobrir-se, e rezar! Página admirável, repito, repassada de uma saudade grave, num colorido tão delicado de paisagem!
Na Quinta dos Miguéis se passou a mocidade do Conde d'Abranhos. Ali estudou a gramática e o latim, sob a direcção do abade de Serzedelo, velho de raras virtudes cristãs. Ali passou as suas férias de formatura.
Eu tive a honra de o acompanhar, quando o Conde foi tratar da sua eleição a Amarante, numa visita à Quinta dos Miguéis. Do portão, uma rua plantada de loureiros conduz à casa de habitação, baixa, sólida, coberta de um dos lados por uma formosa trepadeira, atulhada de rosinhas brancas. Um lanço de escadas de pedra, ornado de velhos vasos azuis, leva ao salão, grande, pintado de oca, com cortinas vermelhas e brancas, e nas paredes litografias das batalhas de Napoleão. Tudo é simples, patriarcal e grave. O Conde mostrou-me o seu quarto e o rebordo da janela onde, em pequeno, pendurava gaiolas de grilos, com a sua folhinha verde de alface. Dali descobre-se a estrada, no traçado do antigo caminho, onde o Conde (segundo ele próprio me contou) via com inveja passar as liteiras que levavam a Braga e ao Porto os fidalgos das vizinhanças. Já então, um sentimento vago – pressentimento do seu alto destino ou simples aspiração de um espírito distinto para os centros letrados e inteligentes – o levava constantemente a desejar a existência das grandes cidades.
Ao fundo da quinta foge um pequeno regato, muito claro, muito pausado, cujo rumor tem a tristeza das águas mansas que correm entre ervas altas; as margens são cobertas de salgueiros; na Primavera os rouxinóis enchem de ninhos aquele lugar assombrado e terno.
Como a noite que passei na quinta era muito calma, fomos depois de jantar, passear junto ao Ribeiral, que é o nome daquele canto de paisagem elegíaca, e nunca esquecerei a bela confidência com que ali me honrou o Conde.
– V. Exª – tinha eu observado – devia, muitas vezes, durante as férias, vir passear aqui e sentir-se inspirado...
O Conde, que por causa da frescura da noite se estava cuidadosamente agasalhando no seu cachené, parou e disse, com aquele gesto grave que tanto impressionava a Câmara:
– Não o conte em Lisboa, Zagalinho, mas uma noite, aqui compus versos!
Eu não me atrevia a pedir-lhe que mos recitasse, mas, sem dúvida, a claridade da Lua no meu rosto revelou um desejo tão intenso de os ouvir, que o Conde, sempre bom, me tomou o braço e disse:
– Era uma noite de apetite: eu andava aqui a passear, a pensar, fumando o meu charuto, – que a tia Amália tinha horror ao fumo do tabaco –quando, de repente, a Lua ergueu-se por detrás dos salgueiros e um rouxinol pôs-se a cantar... e sem saber como, fiz uma quadra. Não a repita! Lembra-me perfeitamente:
Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo Sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!
Não pude conter um bravo, respeitoso mas sentido.
– O pensamento é bonito, mas não o diga em Lisboa, Zagalinho. Se os jornais soubessem que fiz versos... Que gostinho para a oposição...
Eu exclamei, rindo:
– Que gostinho para a oposição, mas que glória para o ministério...
Ele acrescentou:.
– Enfim, são rapaziadas. Todos nós, mais ou menos, em rapazes, fomos poetas e republicanos... Antes isso que andar a beberricar genebra nos botequins e frequentar meretrizes... Mas quando se entra na verdadeira vida política, é necessário pôr de lado esses sentimentos ternos...
Eu então citei, com respeito, alguns dos nossos homens de estado, que foram, são ainda, poetas de alta imaginação.
– Pois sim... – interrompeu o Conde. – Mas lá têm o seu lugar marcado na formação do Ministério... Um poeta não pode ser Ministro do Reino, mas pode muito bem ser Ministro da Marinha.
Grande verdade política!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.