Por Eça de Queirós (1912)
Os olhos quase se lhe enevoavam de lágrimas, quando, da azinhaga por onde ia arquejando, a avistou, sob as grandes árvores. Mas não lhe pareceu neste instante tão escura e humilde. O Sol, que batia em redor nas ramagens, tinha um desacostumado esplendor. A cruz branca, que ele pintara na porta para afugentar os demônios, reluzia, como feita de uma luz clara. Das sebes, a seu lado, saía um aroma mais doce que incenso. As grandes papoulas entre a erva, as flores silvestres, pareciam maiores, com grandes cores de festa. Regatos que não via, borbulhavam alto, com um som fresco do riso.
Ele pasmava desta beleza, que nunca vira nestes caminhos familiares. E eis que subitamente, do lado do rio, rompem, num repique festivo, os grandes sinos do Mosteiro, e do lado do castelo a sineta da capela lança também pelo azul um repique argentino. Todo o céu tinha um alegria de festa. E quando chegou à porta da sua cabana, os pinheiros em redor, movendo as altas ramas, pareciam cantar.
Entrou, sobre o catre, a sua companheira jazia imóvel, branca como o lençol, já composto e liso, que a cobria. E diante do lume que estalava, a moleira, abatida sobre uma tripeça, sustentava no colo o menino, estendido num pano branco... Mas o pobre lenhador, que estendera os braças, como se ante ele se abrissem as portas do Céu – recuou espavorido. O seu filho era um monstro.
Escuro, coberto de uma pela rugosa e áspera; com uma face vaga, informa, onde as feições faziam como vagas protuberâncias nodosas, as mãos enormes enclavinhadas sobre o ventre felpudo; torto das pernas que findavam em dois pés agudos, como os de um fauno, todo ele parecia uma raiz sombria, raiz de árvore estranha, ainda negra da terra de que fora arrancada. E nem gemia. Era como o rudimento de um ser vegetal!
Duas lágrimas amargas e lentas rolaram pela barba do lenhador. Deu um passo para a beira do catre. Na face branca, e como morta, de sua companheira, duas lágrimas corriam também, como na amargura de um sonho desfeito.
III
Como aquele ser informe decerto ia morrer, o próprio pai, aterrado e chorando, o batizou e lhe deu o nome de Cristóvão.
Durante três dia, durante três noites, Cristóvão não mamou, não gemeu, imóvel no berço, que o lenhador e sua companheira constantemente velavam, numa esperança teimosa. sentindo naquela pele rugosa e dura o calor de um sangue forte. Uma tarde que ambos cansados tinham adormecido, sentiram subir, de entre os lençóis do berço que rangia, um rumor singular como o lento balar de um anho muito robusto. Cristóvão descerrara as pálpebras moles, e eles viram enfim os seus olhos de um azul-pálido, como a flor da pervinca. A mãe, radiante, arrebatou-o contra o seio que a abundância de leite sufocava: - e em poucos sorvos, largos e fundos, Cristóvão esvaziou um dos peitos.
Começou então a viver uma vida intensa e rápida. Dormindo, a sua respiração era mais que uma brisa entre ramos; ao acordar os seus gritos abalavam a cabana; e na sua voracidade, sem parar, secava o leite da mãe, chupava através de um pano largos pedaços de mel silvestre, e ficava trincando com impaciência o dedo que, para o consolar, o pai lhe metia entre as gengivas, mais duras que pedras.
E, no entanto, aquela monstruosidade, que o assemelhava a uma grossa e negra raiz, compunha em formas familiares de um corpo grosseiro, mas humano. A pele, perdida a aspereza negra, era lisa e vermelha como uma casca de maçã: a cabeça emergia dos ombros como uma decisão de começar a vida; e as pernas agora direitas, com dois grandes pés chatos, eram tão fortes que, se as agitava, quase fazia tombar o berço.
E bem depressa, com terror da mãe, não coube no berço. Como era no calor de Maio, o bom lenhador fazia com musgo seco, recoberto de um mantéu, um leito na horta, onde o deitavam sob uma mimosa em flor. Mas Cristóvão rolava para fora do mantéu, procurando a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com delícia, como num elemento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava já transparecer o brilho de um dente. Começaram então a aparecer, voando, por sobre os legumes da horta, borboletas de cores prodigiosas, como o lenhador nunca vira. Uma roseira seca havia um ano, e que tinha apenas o tronco mirrado, rebentou em grandes rosas que perfumavam todo o ar. Os melros que ali acudiam, fazendo um canto incessante e festivo, emudeciam quando a enorme criança dormia, com seus grossos punhos fechados. A mimosa, todas as árvores em redor, vieram estendendo as suas ramarias, como toldos de abrigo, para o lado onde se estendia o mantéu. E um dia a mãe, entreabrindo a porta do eido, avistou, espantada, um enorme veado, que por cima da sebe, com os altos paus entre a folhagem, contemplava Cristóvão, com a gravidade de um avô.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.