Por Eça de Queirós (1874)
— Pois a casa não tem buracos – dizia a mãe Vilaça.
No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:
— Pelo amor de Deus! Ora que tem! amanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então Sr. ª D. Luísa! pelo amor de Deus! Não vale nada.
Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtração – e atribui-a ao beneficiado. A peça rolara, decerto, até junto dele, sem ruído, ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado, depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:
— Ora o sumiço da peça, heim? Que brincadeira!
— Acha, senhor beneficiado? – disse Macário parando, absorto de impudência.
— Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! eu dava em doudo!
Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou:
— Amanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdoe! Que diabo! Uma peça não se perde assim. Que bolada, heim!
E Macário tinha vontade de lhe bater.
Foi neste ponto que Macário me disse, com a voz singularmente sentida:
— Enfim, meu amigo, para encurtarmos razões resolvi-me casar com ela.
— Mas a peça?
— Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! resolvi-me casar com ela!
Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu colo-o – mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efêmero. Mas isso bastou ao espírito reto e severo para o obrigar a tomá-la como esposa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra de janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a idéia dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto caráter de santidade e de tristeza.
Macário falou-me muito do caráter e da figura do tio Francisco; a sua possante estatura, os seus óculos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos e a brevidade telegráfica das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almoço, abruptamente, sem transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar», o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de solver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente:
— Não.
— Perdão, tio Francisco!
— Não.
— Mas ouça, tio Francisco...
— Não.
Macário sentiu uma grande cólera.
— Nesse caso, faço-o sem licença.
— Despedido de casa.
— Sairei. Não haja dúvida.
— Hoje.
— Hoje.
E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se :
— Olá! – disse ela a Macário. que estava exasperado, apopléctico, raspando nos vidros da janela.
Macário voltou-se com uma esperança.
— Dê-me daí a caixa do rapé – disse o tio Francisco.
Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado.
— Tio Francisco... – começou Macário.
— Basta. Estamos a doze. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.
As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.
— De muito boa vontade, meu amigo – disse-me ele. – Quem mo dera cá. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem vê. Força maior. Eu sinto, mas...
E todos a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam «ficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos».
E todos «sentiam, mas...».
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Singularidades de uma Rapariga Loura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16623. Acesso em: 29 jun. 2026.